sábado, 29 de agosto de 2009

Os Meus Poetas (IV) - Florbela Espanca


A poesia entrou cedo na minha vida e, pela porta grande, entrou FLORBELA ESPANCA.

A morte é sempre um mistério para nós, eu diria quase um escândalo e, aos quinze anos, parece-nos quase impossível morrer! Apaixonei-me pela poesia desta Mulher e pela sua vida solitária “cheia de amor”… Desde que nasceu, foi uma deserdada da vida: filha de pai incógnito, neta paterna e materna de avós incógnitos! “Queria tanto saber porque sou Eu!” – escreveu.

“Quem me enjeitou neste caminho escuro?” - a procura da sua identidade, do seu próprio caminho, encheu-a sempre de insatisfação. A poesia foi o seu amante mais perfeito, o espaço que a recebia sempre com ternura, onde ela recomeçava depois de cada fracasso amoroso; o recanto onde chorava cada adeus de sonhos perdidos, como a morte do seu único irmão que a marcou dolorosamente; o refúgio onde se escondia de uma sociedade que não a sabia aceitar como mulher moderna, culta, emancipada.

“Altiva e couraçada de desdém/ Vivo sozinha em meu castelo: a dor! / Passa por ele a luz de todo o amor…/ E nunca em meu castelo entrou alguém!”

Era também uma mulher cheia de contradições que não era fácil compreender precisamente porque ela era, e queria ser, uma mulher diferente. De alma complexa, encontrava-se a si própria na sua intimidade, onde ela põe a sua alma a descoberto.

Nasceu a 8 de Dezembro de 1894 e suicidou-se, em Matosinhos, na manhã do seu 36º aniversário, 8 de Dezembro de 1930. Desde Vila Viçosa (Alentejo), onde nasceu, percorre várias localidades no país: Évora, onde conclui os estudos liceais, Lisboa, licenciando-se em Direito na Universidade de Lisboa e, por fim, Matosinhos, no norte do país, onde a revolta a levará à morte, a trágica negação do seu desejo.

As desilusões - três casamentos mal sucedidos, a morte do irmão, seu grande confidente - centram a temática da sua obra na solidão, no sofrimento e no desencanto pela vida. Contudo, há uma forte ligação com a Natureza, através da paisagem da sua charneca alentejana.

Quando em Quelimane (Moçambique) estudava no colégio a sua obra e, depois, mais tarde, lia os seus “Contos”, inquietava-me sempre com a sua alma de mulher e não entendia bem como ela própria se descrevia: “honesta sem preconceitos, amorosa sem luxúria, casta sem formalidades, recta sem princípios e, sempre viva, exaltantemente viva, a palpitar de seiva quente como as flores selvagens da minha bárbara charneca”.

Mal sabia eu que um dia, com a “ reviravolta” da História, seria profissionalmente colocada em Matosinhos. Uma tarde, ao levar o meu filho ao Colégio, passo por uma ruazinha simpática de casas antigas e descubro na parede de uma delas uma placa onde se lia: “Aqui viveu e morreu Florbela Espanca.” Não resisti. Parei o carro e sentindo a mesma angústia com que estudava os seus sonetos, tentei encontrar respostas a tantas interrogações que ficaram pelo caminho.

Olhando as pequenas janelas bem cuidadas (na altura) pensava que dali Florbela teria lançado o último olhar sobre um mundo que nunca a entendeu. E no ar ficava sempre a mesma pergunta: Porquê? Porquê?

Sempre que ali passava (e foram anos a fazê-lo), e mesmo que não parasse, elevava o meu pensamento até ela, incrivelmente com uma saudade como se tivesse sentido a tristeza do sofrimento de uma mulher que, neste mundo, apenas quis “amar, amar perdidamente”.

Há muito tempo que não vou a Matosinhos mas sei que, quando lá voltar, não resistirei a passar por aquela ruazinha quase debruçada sobre as águas; nesse momento, olhando as janelas, ouvirei:

“ A nossa casa, Amor, a nossa casa!

Onde está ela, Amor, que a não vejo?

Na minha doida fantasia em brasa

Constrói-a, num instante, o meu desejo!”.

Florbela Espanca morreu há 79 anos e a sua obra continua a ser lida em todo o mundo, sem esmorecimento. A sua vida é esmiuçada com uma curiosidade, para além da literatura, pela mulher “que no mundo anda perdida, (…) a que na vida não tem norte”.

Foi difícil escolher sonetos para este post. Quereria-os todos! Mas escolhi dois que foram tema de um trabalho que fiz, era eu ainda estudante, sobre esta grande poetisa, enorme mulher.

AMAR


Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui…além…

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...

Prender ou desprender? É mal ? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder… pra me encontrar…

ALMA PERDIDA


Toda esta noite o rouxinol chorou,

Gemeu, rezou, gritou perdidamente!

Alma de rouxinol, alma da gente,

Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,

Que se fundiu na Dor, suavemente…

Talvez sejas a alma, a alma doente

Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei

Talvez porque, ao ouvir-te, advinhei

Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,

Que eu pensei que tu eras a minh’alma

Que chorasse perdida em tua voz!...


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Quinze Anos


Quando se tem quinze anos somos uma mistura de mulher com bastante
s resíduos ainda de criança, cuja pele não se conseguiu largar completamente, como fazem as sardaniscas.
Há ainda gargalhadas muito sonoras, como pequenas campainhas, perante coisas tão simples como o nascimento de seis bolinhas de oiro, atropelando-se à volta da mãe-galinha. Fascinada pela vida que surgira, atirava feliz uma mão bem cheia de milho.
Mas é também a idade de variações de humor, rápidas e sem explicação: à explosão de alegria, seguem-se silêncios emotivos, sonhadores e melancólicos. Uns e outros por vezes até angustiantes. É o processo de crescimento!
No colégio e nas aulas, enquanto a freira ia explicando a matéria, eu deslocava-me rapidamente para as nuvens, enquanto a minha mão enchia o caderno de pequeninos corações alados, como asas de um anjo, talvez mesmo do Cupido. Num deles, punha o meu nome e no outro… ficava o Amor, ainda sem nome! Foi aqui que me apaixonei pelos sonetos de Florbela Espanca.” Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: Aqui…além…”
Absorta, ouvia a voz da minha colega perguntar-me insistentemente:
- Quando é que esse coração tem um nome?
- Ainda não sei, mas prometo que serás tu a primeira a saber!

Péguy (escritor francês) dizia: ”Quando uma palavra de criança cai, como uma fonte, como um sonho, como uma lágrima num lago - homens e mulheres é a vossa antiga alma de criança que passa”. Sim, sentia como uma brisa suave, quase um murmúrio, que a minha alma de criança começava a ter outros contornos. Tantas coisas que aprendi da vida, esquecendo tantas outras…
Certo dia chegou a Quelimane um forasteiro! Não um forasteiro qualquer… Alto, bonito, um “pedaço de mau caminho”… um Adónis!
Numa cidade pequena onde quase todos se conheciam, pelo menos de vista, aquele “milagre” enchia os olhos e os corações das jovens como eu. O colégio inteiro (a parte feminina, é claro) andava agitado, interrogativo: quem seria? Qual o seu nome? Viria para ficar? O que fazia?
Tenho a certeza que as notas, nesse período, desceram todas! A minha colega, que tinha um irmão que já trabalhava, prometeu-me que ele iria descobrir tudo sobre o “Adónis”. Os intervalos passaram a ser momentos propícios à nossa “investigação”. Isolávamo-nos das outras. O tempo fortificava cada vez mais a nossa amizade (que dura até hoje…). A ...... passou a suspirar comigo! O meu coração batia desordenado, inquieto, por não saber o nome do meu príncipe… O ritmo dos corações desenhados era agora mais intenso. Dos cadernos passaram para os livros…


Um dia, a ...... esperava-me na esquina do colégio, agitando um papel.
- Que aconteceu? Sabes alguma coisa? - Perguntei ansiosa.

- Nem vais acreditar! - Respondia a ...... arfando de emoção.
- Desembucha, antes que me dê um ataque!
- Então cá vai: ele vai entrar numa revista que vai ser exibida no Águia no próximo mês. Andam a distribuir estes panfletos por toda a cidade - E mostrava-me triunfante um papel alaranjado. Li com avidez o elenco, um enorme rol de artistas.

- Como é que vou descobrir qual é o nome dele no meio destes todos?

- Acalma-te um pouco! Vamos por exclusões de partes. Afinal, há aqui muitos que nós conhecemos.

Achei a ideia excelente. Santa inocência… Mas havia beleza em tanta ingenuidade. Os nossos gestos tinham o seu próprio valor.
Da lista, sobravam-nos três nomes desconhecidos: Manuel ......, José ...... e Eduardo Luís.

Não pude evitar um suspiro: desde manhãzinha que eu sentia que se aproximava qualquer coisa importante.
- Com aquela figura não pode ter um nome vulgar. É isso: ele é o Eduardo Luís!
- Achas? - Perguntava a ...... timidamente!
- Não tenho qualquer dúvida. Fecha os olhos e “percorre-o” todo… está-se mesmo a ver: Eduardo Luis! Qual Manel ou José… demasiado vulgares.

Estava feliz! Finalmente o meu coração vazio ia ter um nome. Febrilmente, corri os cadernos e os livros, escrevendo sem cessar: “E.L. E.L.”…
- Queres ajuda?

- Não, seria uma traição! Tem de ser com a minha mão. - Estava demasiado comovida para aceitar qualquer outra sugestão.

Na semana seguinte, a ...... disse-me que o irmão já nos tinha comprado bilhetes para o teatro e na fila da frente como eu tinha pedido. Iria ficar sem toda a mensalidade… paciência, o amor vale todos os sacrifícios.
O dia tinha estado baço e triste mas a noite veio expulsar todas essas cores. Na sala a inundação de luzes e de gente ansiosa impedia que fosse verdadeiramente noite. O meu coração bateu mais depressa, as mãos suaram e senti um frio na barriga, quando, por detrás das cortinas soou uma voz, dizendo: “Recebam com um forte aplauso o apresentador do espectáculo… Eduaaaaaaardo Luuuuuuís!
- É ele, é ele! – Exclamei, agarrando-me ao braço da minha amiga.

As cortinas, pesadas, abriram-se lentamente e, no meio do palco, surgiu um homenzinho anafado, careca, de lacinho, usando óculos de tartaruga.

- Não, não pode ser… – Disse sem pinta de sangue.

Afinal, o meu “Adónis” era um vulgar Manel… dos anzóis.

Quando cheguei a casa a minha mãe perguntou-me:

- Gostaste do teatro?

- Nem me fale! Vou vestir o pijama e vou para o quarto fazer os deveres. - Disse furibunda.

- A estas horas? Já é tão tarde… Não é preferível acordares mais cedo amanhã?
- Não, não. Isto tem de ser feito hoje, senão não durmo descansada!
Pouco tempo depois, no silêncio da casa, só se ouvia o ruído de papéis a serem rasgados. Sufocada por lágrimas de raiva, adormecia o meu primeiro desgosto de “amor” na minha almofada cor-de-rosa!


domingo, 23 de agosto de 2009

Parabéns Minha Cidade


Ontem, dia 22, fez anos que Quelimane foi elevada à categoria de cidade! Não poderia escolher melhor tema para o meu 100º post, o aniversário da minha terra.

Que saudades de ti. Não como estás hoje, velha, suja e cheia de cicatrizes. Há vândalos à solta pelas avenidas que eram o meu orgulho. Que fizeram contigo? A derrota é o pesadelo que ensombra hoje as tuas noites.


Cresci contigo e fiz-me menina e mulher a par, também, das tuas transformações. Confidenciávamo-nos os nossos segredos e acalentávamos sonhos para um futuro em conjunto. Mas traíram-nos com a palavra liberdade e não fomos aquilo que deveríamos ter sido. Que saudades tenho hoje de ti, do Quelimane antigo, ainda sem prédios altos e modernos, mas com as casas de madeira a zinco e as ruas de areia solta onde as crianças jogavam à bola sem medo. Do Quelimane da minha infância, misterioso e familiar, onde mesmo à noitinha, a meninada corria, saltava e ria. Do Torrone à Sinacura, do Saguar à Segura, o luar escorria em fios de prata dos palmares e a noite era quente, enfeitiçada, quase selvagem. Quando morria o dia, logo acordava o batuque e o negro vinha esquecer, na sua dança frenética, o trabalho pesado do dia. Os galos cantavam cedo em todos os quintais e o sol, como uma hóstia ensanguentada, vomitava entre renques de coqueiros as sete cores do arco-íris. E o dia deitava-se preguiçosamente nas águas serenas dos Bons Sinais, num cenário de enlouquecer até à zona bucólica do Chuabodembe. Quelimane de tempos idos, do moleque Missasse que orava quando as terras secavam pondo as mãos no peito:
- Mulungo, mio ofunam mangie! (Deus, nós queremos água!) - E os céus, como um milagre, abriam-se e a água jorrava em torrentes!
Quelimane desses tempos, de tradições imortais, de jantares pantagruélicos, das “Donas” bamboleando as suas ancas e dos meninos brincando descalços ao berlinde no pátio que nós adoptáramos como nosso. Sacolas atiradas para o chão, mãos sujas de tanto empurrar os berlindes e as orelhas moucas ao chamamento das nossas mães: “Meninos venham lanchar!” E o chamamento esmorecia de cansaço. Quando os candeeiros da rua acendiam, nós ainda estávamos com os dedos febris numa competição que não tinha fim. De repente na varandinha da casa da frente, surgia a padeira, uma mulher alta corpulenta com um enorme vozeirão e com as mãos na cintura, gritava: “Anda Maria … jantar imediatamente. Os teus colegas não têm casa?”
Tínhamos medo da padeira de Aljubarrota, como lhe chamávamos, e ela conseguia aquilo que as nossas mães vinham tentando há horas: tirar-nos da rua.


Quelimane menina, Quelimane mulher, rompendo da noite como um fruto maduro e eu contigo, em manhãs de poemas sonhando com o amor… Quelimane de outrora, que saudades… Cantavas a liturgia de uma terra que era feliz. Sê-lo-ás agora? Penso que não! O cansaço pesa-te e a desilusão também. Ontem, encontraríamos espalhados por ti, brasões e tradições. Hoje, no teu corpo desventrado, surgem cicatrizes ainda ensanguentadas. Que fizeram contigo, minha terra? Não é fácil guardar a imagem que tinha de ti, quando o cenário mudou tanto e para pior. Mas amo-te ainda mais porque sofres. Mas não deixes que te roubem todo o encanto que tinhas. Deixa as tuas lembranças e as minhas à beira do rio que, encaminhando-se para a foz, e através do mar, as levará até mim. Cidade de memórias felizes, estarás sempre aí como testemunha amiga de um outro tempo em que nascemos quase juntas!
Não te deixes trair mais, é o que te peço neste dia do teu aniversário! Com a ternura aflita de uma filha que não voltará a ver a sua”mãe”, afirmo-te: Só morremos quando mortos na memória daqueles que nos amam.





quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Tempo, Esse Escultor


COM O TEMPO…
Aprendes que fundir a tua vida com alguém só porque “estás sozinho” ou só porque esse alguém te promete um bom futuro, poderá significar que, mais cedo ou mais tarde, queiras voltar a estar sozinho.

COM O TEMPO… Dás-te conta que cada pessoa é irrepetível e compreendes que só quem é capaz de te amar com os teus defeitos, sem te querer mudar, é que te pode ajudar a conseguir a felicidade que desejas.

COM O TEMPO… Dás-te conta que os verdadeiros amigos sabem dizer-te que não concordam contigo e que se feriste muito algum deles, provavelmente a vossa amizade jamais será igual.

COM O TEMPO… Dás-te conta que os amigos são sempre poucos e que deves procurá-los sobretudo quando não “precisas” deles.

COM O TEMPO… Aprendes que as palavras ditas num momento de raiva podem continuar a magoar por toda a vida.

COM O TEMPO… Aprendes que desculpar é relativamente fácil e que perdoar é um desafio bem maior.

COM O TEMPO… Dás-te conta que hoje podes ser um pavão e amanhã um simples espanador e que aquele que humilha e despreza corre o risco de ser um dia também humilhado e desprezado.

COM O TEMPO… Aprendes a construir os teus sonhos hoje porque o reino do amanhã é um bosque de bailados e segredos, demasiado incerto para fazer planos.

COM O TEMPO… Compreendes que tudo tem um tempo de maturação e que apressá-lo ou forçá-lo pode significar vir a colheres frutos azedos.

COM O TEMPO… Dás-te conta que na realidade o melhor não era o futuro, mas sim aquele simples momento que estavas a viver naquele instante.

COM O TEMPO… Aprenderás que perdoar ou pedir perdão, dizer que amas e que sentes falta, junto de una urna, deixa de fazer qualquer sentido.

Por tudo isto, que talvez aprendas COM O TEMPO, será bom teres presente que nos tornamos velhos muito rapidamente e sábios demasiado tarde, precisamente quando já não TEMOS TEMPO.

- Henrique Manuel
.

Time of Your Life

(Green Day)


Another turning point
a fork stuck in the road.
Time grabs you by the wrist
directs you where to go.
So make the best of this test
and don't ask why.
It's not a question
but a lesson learned in time.

It's something unpredictable
but in the end it's right.
I hope you had the time of your life.

So take the photographs
and still frames in your mind.
Hang it on a shelf
In good health and good time.
Tattoos of memories
and dead skin on trial.
For what it's worth,
it was worth all the while.

It's something unpredictable
but in the end it's right.
I hope you had the time of your life.


Os Melhores Momentos da Tua Vida

(Green Day)


Outro momento de mudança
uma bifurcação cravada no caminho.
O tempo agarra-te pelo pulso
e indica para onde deves seguir.
Então aproveita ao máximo este teste
e não perguntes porquê.
Isto não é uma pergunta,
é uma lição que tens de aprender.

É algo de imprevisível
mas que no fim termina bem.
Espero que tenhas vivido os melhores momentos da vida.

Então agarra as fotografias
e as imagens que tens na mente.
Pendura tudo numa prateleira
De boa saúde e bons momentos.
Tatuagens de memórias
e pele morta em julgamento.
Porque aquilo que vale a pena,
valeu a pena sempre.

É algo de imprevisível
mas que no fim termina bem.
Espero que tenhas vivido os melhores momentos da vida.


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Joaquina Malalo


Lembrava uma passa preta, encarquilhadinha como esta, com o tronco inclinado para a frente a caminho dos joelhos. Sempre a conheci assim. Não era uma preta bonita, pelo contrário. A primeira vez que vi no cinema o filme “E.T.” a minha memória associou logo aquele rosto ao da Joaquina Malalo. A princípio tem-se medo, mas depois desperta ternura.
Cirandava à volta da Igreja vezes sem conta, tentando (e conseguindo) manter a ordem a todos os níveis. Parecia uma coruja à volta de uma candeia de azeite. Era, sem dúvida a guardiã do templo. Corria com a criançada que ia brincar ao berlinde ou jogar à neca nos dois pequenos claustros laterais da Igreja. Varria-os constantemente, tanto cá fora como dentro da própria igreja. Quando as irmãs franciscanas chegavam para decorar os altares e fazer as duas limpezas semanais, já a Joaquina tinha tirado as flores secas das jarras e posto água limpa em todas.
Com o tempo, a Igreja de Nossa Senhora do Livramento tornou-se pequena e com poucos espaços disponíveis para as reuniões de vários movimentos e para o exercício da Catequese.
Tinha um cartório onde se podia encontrar permanentemente um sacerdote (no tempo em que estes estavam “ao serviço” do povo para os ouvir e confortar nas suas penas) e uma sacristia onde, curiosamente, havia uma fonte em forma de concha. A seguir ficava a sala ”multi-usos” - como eu lhe chamava. Saíam uns e entravam logo outros, tudo de enfiada. Nessa sala, a par de uma mesa comprida coberta com tecido vermelho escuro, adamascado, havia uma falange de santos de séculos passados que tinham sido retirados “da vida activa” devido ao seu estado de conservação: zarolhos, decepados, manetas, enfim, quase dantescos. Quantas vezes em reuniões ali realizadas, eu sentia que estava a ser vigiada por aqueles olhares distorcidos e vesgos. Tiravam-me um pouco do sério, devo confessar. Ao lado localizava-se um pequeno compartimento, com saída para o exterior, onde outrora tinha existido uma lojinha que vendia santos, medalhas, terços e pagelas. A modernidade (e necessidade) ordenou que aquele espaço fosse substituído por uma funcional casa de banho.
Do outro lado, pegado ao cartório, ficava um pequeno salão que esteve muitos anos cedido ao Centro Juvenil de Quelimane. Antes tinha funcionado como espaço para pequenas exposições e convívios.
Era este o reino da Joaquina Malalo, que tinha dois amores (ainda não se falava no Marco Paulo…). Quantas vezes a surpreendi, quando a Igreja estava vazia, em frente a uma lindíssima imagem do Sagrado Coração de Jesus, benzendo-se dúzias de vezes e batendo com a mão no peito; murmurava algo que nunca entendi. Dali saltava para o altar de Santo António, seu amor maior, e com os olhos em alvo, parecia ficar em êxtase.
A Joaquina falava mal o português e tinha uma deficiência na fala que ainda complicava mais o seu entendimento. Utilizava muito os gestos faciais, as mãos e os ombros. Quando ainda assim não chegávamos a nenhuma conclusão, virava-nos as costas deveras zangada.
A Joaquina morava longe de Quelimane, quase ao lado de Namacata, uma pequena povoação que era a primeira paragem de comboio quando se viajava de Quelimane para Mocuba, isto é, a 12 km da cidade! Pois ela calcorreava a pé todos estes quilómetros, madrugada ainda, para chegar a tempo de abrir a Igreja antes da primeira missa da manhã. À noite, regressava à sua palhota depois de missa vespertina. Às vezes, as pessoas condoídas davam-lhe boleia não esquecendo as suas trouxas que nunca largava. Eu era uma das motoristas de ocasião. Numa dessas viagens, nas suas parcas palavras, disse-me: “António, santo no céu; António, santo na terra!”
E eu pensei logo: queres ver que santo António lhe apareceu e teve uma conversa com ela!
Quis desvendar o mistério.
- Quem? Santo António da Igreja? - Olhou para mim como quem diz, mas és burra ou quê?!
- António, santo, teu pai. – disse-me zangada batendo com os pés.
- Meu pai? E porque é ele santo? - estava intrigada…
- António, santo da terra, dá comida à Joaquina: arroz, milho, leite, pão, tudo que precisar. Às vezes também dá boleia.
O meu pai tinha um estabelecimento comercial em Namacata e eu conhecia bem o coração “deste” António, capaz de ajudar todo o mundo.
Quando o tempo estava de chuva e trovoada, a Joaquina dormia dentro da Igreja, com a autorização do padre. Com a idade e as dificuldades que a Joaquina ia apresentando, o Padre Santos autorizou-a a mudar-se definitivamente para a Igreja e deu-lhe como quarto - o que haveria de ser? - o “multi-usos”! Mas esqueceu-se de nos avisar.
Na primeira reunião depois do “alojamento”, estava eu a ler a acta (era secretária de um movimento), quando tenho a nítida sensação que alguém me olhava. Devo estar a ficar louca, agora com medo dos santos mutilados… Levantei os olhos do livro das actas e vi uma cara diferente no meio dos “desgraçados”, sorrindo para mim. Dei um grito e deixei cair tudo o que tinha nas mãos. Os outros olharam também e gritaram: “Ai, o que é isto?”
O Padre Santos ria-se enquanto dizia:
- Vá Joaquina, sai daí. Este sítio é só para dormires. – E só então nos explicou a sua decisão, com a qual concordamos plenamente.
A Joaquina morreu de velhice, uma noite, dentro da Igreja e junto ao altar de Santo António.
O Padre Santos não permitiu que ela fosse para a casa mortuária. Foi velada ali na “sua”igreja, com missa de corpo presente, muitas flores e muitas, muitas lágrimas de todos aqueles que lhe queriam bem.
Quando ia à Igreja e olhava a estátua de santo António, parecia-me ver, nas sombras, a cara de E.T. da Joaquina Malalo que, tal como a personagem do filme, parecia querer-me dizer, qual apogeu cinematográfico: “cheguei a minha casa”.

sábado, 15 de agosto de 2009

Melancolia


Hoje a melancolia chegou de um modo inesperado, mas lindo! O sol parecendo um imenso olho laranja com uma auréola vermelha, mergulhava feliz no mar calmo
da tarde.
Faltavam as doces palmeiras e eu estaria fisicamente na minha terra. As temperaturas altas do dia deliciaram-me. Cruzei os mares, mergulhei no Índico e recebi sorrisos não poluídos.
De vez em quando acontecem emoções na minha vida… Alguém tem pena de mim e envia-me estas ondas de melancolia um pouco em desalinho. O sol queimava e ficava na minha pele.
Ao fechar os olhos, o mar sussurrava cânticos que eu conheço de longe. Seria verdade? Onde estaria?
Na minha procura nunca saciada e nos encontros por celebrar, colhia absurdamente respostas para tantos enigmas. Neste tempo sem horas, no montão de uma quinquilharia desordenada, encontrava o essencial.
Bater as asas e voar para outra latitude não é difícil. Pode ser um delírio. Mas há um caminho que me conduz sempre aonde eu quero. E recomeço mais uma vez…
Estrada de areia batida por pés descalços, doridos, mas felizes... Espero que me reconheçam. Passou tanto tempo… Talvez nos meus gestos encontrem afectos de outras horas. O coração nunca envelhece e o meu, morre jovem. Saberão encontrar-me no meu sorriso, embora o meu passo seja mais lento. Eles, parecem-me os mesmos, humildes na sua pobreza, mas livres.
Não, não quero acordar!
Sei que a noite caiu a meu lado, mas os meus olhos estão forrados de manhãs azuis. Os sonhos são rápidos e trazem-me uma alegria enorme que me invade e transforma a minha realidade. Desesperadamente fecho ainda mais os olhos, procurando segurar-me na inquietação do imediato.
Não posso ficar aqui indefinidamente! Abro os olhos devagar, muito, mas muito devagar e olho… as estrelas. Tinha-me esquecido delas. Brilham como contas.
A maré devolveu-me ao ponto de partida. Escuto os sinais. Pode não ser tudo, mas é alguma coisa. Se o exterior me fere, então, recolho-me na minha concha que o mar acaba de devolver à praia... E nela sim, no seu (meu) interior, está o paraíso que eu procuro.
Prolongo o círculo, alargo os braços e o meu desejo confunde-se com o vagar das ondas…


Apetece-me cantar, dançar à volta da vida vivida… Quantos terão, assim como eu, tesouros? Afinal, vou levar a melancolia comigo e, quando quiser, basta fechar os olhos e percorrer a viagem misteriosa da vida.
Regresso ressuscitada, disposta a cruzar-me com todos e ensinar-lhes a possibilidade de serem felizes.
Os meus olhos estão cansados, mas o meu coração, apesar de bordado com tantas cicatrizes, canta uma canção feliz e olha o futuro na plenitude deste momento.

Bolas de Sabão

BOLAS DE SABÃO
Quanta vezes não me diverti fazendo bolas de sabão e chorava quando elas caíam no chão...ainda não sabia que a vida, são bolas de sabão: umas, sobem, outras,não.!
Um beijo amigo
Graça

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

No Tempo Em Que Eu Era Miss


Sim, leram bem! Por duas vezes, fui Miss! Não uma miss de 86-60-86 mas uma miss com muito mais valor para mim: Rainha da Simpatia da Zambézia e Maria Mais Simpática de Moçambique. Foram dois concursos diferentes no formato, no resultado e no espaço.
A simpatia sempre foi importante para mim. Foi um milagre que a vida me deu e, tal como o amor, apenas tive de a cultivar. É muito mais fácil lidar com os outros através de um sorriso do que equacionar possibilidades, estratégias, probabilidades com margens de erros e falhanços, enredando-nos em questões sem saídas. Um sorriso, franco, aberto e amigo abre todas as portas mesmo aquelas de corações mais empedernidos. A vida são dias a correr vertiginosamente, demasiado curta para nos arriscarmos a azedar a nossa passagem por aqui. Basta ouvir o bater do nosso coração e elevarmos esse pulsar até à nossa boca. Tão simples como isto!


Um dia, chegou a Quelimane um artista brasileiro - Odir Odyllon - que vinha organizando por todo o país (em cada um dos cinco distritos de Moçambique) um concurso chamado “Rainha da Simpatia” com o apoio das rádios locais, comércio em geral e imprensa. Podia inscrever-se quem quisesse desde que obedecesse a alguns requisitos: idade, ser solteira e habilitações literárias a um determinado nível. A simpatia começou pelos meus colegas de trabalho que me inscreveram sem me dizerem nada. À noite, ao ouvir a rádio, escutava com espanto o meu nome entre dezenas de candidatas. “Mas o que é isto?” – pensava eu! A dúvida durou pouco tempo. Os “culpados” denunciavam-se pelo telefone:
- Fomos nós porque achamos que és a candidata ideal!
Do espectáculo do concurso fazia parte a exibição de um filme (do qual já não me recordo o nome…). No intervalo havia um desfile das candidatas, uma pequena entrevista a cada uma delas e a avaliação de um júri secreto espalhado pela plateia do Cine Teatro Águia.
De repente, sonhos talvez não sonhados estavam ao meu alcance, aplausos da vitória pareciam-me o tilintar mágico de cristais, enquanto sensações novas, estranhas e contraditórias envolviam os meus dezanove anos.
Entretanto o comércio era generoso para comigo: prendas, prendas e mais prendas, todas maravilhosas, inundaram a minha casa. Ainda hoje guardo algumas delas: salvas de prata e uma jarra em murano que é a minha perdição. Está quase sempre cheia de rosas, como neste momento!
Para além da viagem a Lourenço Marques, para a finalíssima, a organização do concurso proporcionou-me uma estadia de uma semana no Hotel Polana, o melhor hotel de Moçambique e um dos melhores de toda a África Austral (na época.) Na minha mala viajaram a minha faixa e a coroa de “rainha”.


Foram sete dias muito cansativos repletos de entrevistas para todos os jornais e revistas moçambicanos e da Metrópole. A própria RTP foi filmar o evento. Para além das entrevistas tínhamos as visitas oficiais: Governo, Presidente da Câmara, Cônsul do Brasil em Moçambique, RCM e ainda a várias firmas comerciais e industriais das mais conceituadas na capital. Estávamos felizes com tanto “rendez-vous”! À noite dançávamos na boîte do Hotel, ao som do conjunto italiano “I Cinque di Roma”. Romantismo total! Os corações masculinos quebravam-se e derretiam à nossa volta… E nós sonhávamos, sonhávamos!
A representante de Nampula ganhou o título máximo e foi ao Brasil, acompanhada da Mãe e do Odyr Odyllon, como é óbvio.
A partir desses dias, cinco jovens ficaram unidas para sempre numa Amizade que prevalece até aos dias de hoje, embora se encontrem espalhadas geograficamente por Portugal e Brasil.
Dizem que o sofrimento une as pessoas e é verdade! Mas a felicidade também e deixa um sabor a mel e a chocolate que nunca mais se esquece na vida.


domingo, 9 de agosto de 2009

Os Meus Poetas (III) - Henrique Guerra


Os meus poetas
não são apenas aqueles que ganharam fama e se “libertaram da lei da morte”… São também os outros (e são tantos…) que seguiram outros caminhos e, quase no anonimato, foram luzes na paisagem humana da vida. São caminheiros das palavras, às vezes cansados e tristes mas que encontraram sempre na poesia um lugar para abrirem a sua alma e deixarem correr como um rio, sentimentos, dores e alegrias! Não sei se o Henrique chegou a publicar algum livro. Desconheço. Mas sei que, em vários periódicos moçambicanos, deixou poemas seus como marcos de um caminho diferente, muito dele. Também na “Folha de Côco” alguns dos seus poemas tiveram a visibilidade que mereciam, como é o caso deste “Batuque”, poema premiado com o 1º Prémio do Concurso do Rádio Clube de Moçambique (de Lourenço Marques) “Poetas de Moçambique” e declamado aos microfones daquela emissora, pelo escritor Agostinho Caramelo. Este teu Batuque, Henrique, tem cinquenta anos! Acredito que a negra Malua continua na serra de Tumbine, agora feliz para sempre com Tandir. Fisicamente já não estás entre nós mas a tua alma, essa, nas noites de luar, dança ao som de um batuque que os ventos perfumados das plantações de chá lançam num céu limpo e estrelado, território sem fronteiras, onde todos aqueles que partiram se encontram e dão-se a conhecer na sua autenticidade. Talvez, hoje, sejas tu a declamar este poema para todos eles, e as estrelas brilharão mais e os homens sentirão que a noite se tornou numa luz diferente.


“…No cume da serra Tumbine, região do Milange, há uma figura estranha, talhada na pedra negra da serrania, a que, a auréola branca do nevoeiro empresta um toque místico de Divindade. Dizem os velhos que é Malua, a virgem negra, que um dia a serra subiu e não voltou…”
- Lenda do Alto Zambeze

Batuque

Na Imensidão da noite,
Longe, muito ao longe,
O som lúgubre do tambor ecoa…
Projecta-se no ar…
E corre
Salta
Voa
E num lamento profundo pelas negras terras se espalha…
Que novas trará?!
Será festa o seu significado?!
Quiçá uma dança de noivado,
O “muene” que está quase a morrer?!
Ou será guerra?!
Ou ainda a chuva, que na serra
Despontou
P’rá “machamba” não morrer!
E os negros dançam… e dançam…
À luz rubra das fogueiras
Seus corpos brilham p’lo suor,
Contorcem-se
E saltam… e saltam… e gritam,
No prazer da dança
No prazer do amor!…
Só Tandir não dança…
Nunca mais dançará!…
Distante e pensativo,
Olhos fitos na palhota de estuque
Pensa na negra Malua.
Que p’ra calar a cólera de Tumbine,
Deus da Serra
Ao som demoníaco do batuque
P’ra ele irá subir!
Esbelta e nua
A noiva de Tandir
A escultural Malua
E o ritmo soa agora mais forte,
Foge em disparada,
E ao negro distante vai anunciar
Que a hora da sacrifício chegou!…,
Tumbine espreita
Tumbine não dorme
E indiferente a Tandir,
Um riso macabro no seu rosto enorme,
Lá do alto chama Malua,
Que esbelta e nua
A serra subirá
P’ra ele a possuir!…
………………………………
Rompe a madrugada…
O tambor há muito se calou
Malua a serra já subiu
Seu corpo d’ébano Tumbine possuiu
E arrebatou sem piedade
P’ra toda a eternidade!…

Mas Malua não foi só!…
Tandir
Não resistiu à suprema dor da despedida!
Sua alma voa pelo espaço,
Unida à de Malua num abraço
Estranho e Forte…
Como a própria Morte!…

Quelimane, Outubro de 1959