quinta-feira, 27 de junho de 2013

Férias

O mar tinha duas tonalidades – tal como a vida! Uma, de um azul cinzento carregado e outra num verde luminoso como a esperança. As ondas bordadas de branco alteavam-se numa força vitalizadora para depois se espraiarem na areia doirada, preguiçosa e sonhadoramente.


Sempre gostei de contemplar este mar que me diz muito. Fala-me de coisas que eu até já havia esquecido e a sua cadência lembra-me que, a toda a hora é preciso recomeçar...
Mas estou de férias! Será que até em férias é preciso recomeçar? Claro, como o mar. As horas encadeiam-se e desfazem-se, para logo se formar a seguinte – como as ondas do mar. O ciclo da vida não pára só porque estamos de férias e na vida, nada se perde, como as ondas do mar... Formam-se as ondas, desfazem-se as ondas mas a água permanece sempre a mesma, anos vêem, anos vão, mas a vida que se viveu não se perde, nem se some – fica em nós.


As férias passarão mas virão outras... cadenciadas como o mar. E tantas recordações que ficaram. Horas felizes, experiências, lições, beijos trocados e sonhos, tantos sonhos arquitectados. Seja como for, é vida vivida que faz parte de mim própria.
É por isso que gosto do mar. Compromete-me a estar comigo própria e em cada salpico de água, mesmo na crista da onda, lá vêem as recordações todas, as horas feitas e desfeitas, as descobertas, os fracassos e as ilusões.



É tempo de pensar, tomar decisões... para recomeçar! De novo, como as ondas do mar, num ciclo azul cinzento das horas difíceis e noutro, verde esperança das horas alegres e partilhadas.
Férias que se sucedem – vida que permanece... como as ondas do mar.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Meu Jardim


Se há alguns anos atrás me dissessem que jardinar seria uma das minhas paixões, não acreditaria! Ainda bem que mudamos. É no meu jardim que eu reúno momentos tão dispersos da minha vida. Gosto dos apelos no seu silêncio. Enquanto corto a sebe a minha alma está aberta a todas as emoções.

Está um dia de sol aberto, maravilhoso. Todos se queixam: está calor! Eu respiro feliz: que delícia! Gosto do sol a morder-me na pele. As cores espalhadas pelo verde extasiam-me. Os aromas estonteiam-me e trazem-me recordações. A chilreada de centenas de passarinhos, que este ano invadiram todo o espaço exterior, é delícia para os meus ouvidos. Melhor que as partituras dos mais famosos, pelo menos mais natural.
Tesourada daqui, tesourada dali e os pensamentos são como os ventos, chegam à hora menos pensada. Como fugir deles? Não sei como fechá-los… Há um perfume de rosas (postas por ti) que reverdece as lembranças. Nesse dia tinhas aparado toda a sebe do jardim, as heras dos muros do quintal e do pátio. Foi um trabalho exaustivo, parecia-te que o mundo acabaria nesse dia e era preciso deixar tudo em ordem. Não acabou mas aproximava-se a curva da estrada. Atrás de ti ia juntando todos os ramos para ser depois mais fácil apanhá-los. Do fundo do quintal disseste-me: “Belo trabalho, miúda, belo trabalho”.




À noite, um vento gélido varreu as estrelas do céu e entrou-nos pela casa dentro. Começava a tua via-sacra. E eu, tal como Maria, acompanhava-te numa angústia, sem saber o que fazer. Mais uma vez tive a noção que a vida é a sala de espera para a eternidade. Escutara o teu canto de cisne, assistira ao teu desafio redobrado à volta da sebe, como andorinha estonteada à procura de fazer o seu ninho… Tudo eram sinais de esperança! No entanto, o teu passo acertava-se já com outros passos de um outro caminho. Partiste daí a um mês. Nem mais. Nem menos. Sempre foste rigoroso em tudo e por último não podias falhar.
É no jardim que eu sinto mais a tua presença e talvez por isso goste tanto dele e o cuide com tanto amor. Mas não há só lágrimas por cima das tuas rosas… Oiço rumores de beijos, risadas cúmplices de quem, apesar dos anos, ainda sabia namorar. A alegria de saber que no meu coração, e no teu, existia um lugar especial para nós dois.
Hoje, sem estares comigo, estás presente. Vejo-te nas flores que me rodeiam. A distância? Ela não consegue destruir aquele fio invisível que nos prende. Continuas ali, no nosso jardim… Apenas agora, quem poda a sebe sou eu.
De um lugar para onde todos nos encaminhamos, vais fiscalizando o meu trabalho e sinto no coração pequenas mensagens, como se, de facto, o nosso diálogo não tivesse ainda terminado. E o coração não me engana. Não sei dimensioná-lo, não sei descrevê-lo… mas esse lugar maravilhoso existe mesmo.




Gosto do meu jardim: nele colho sorrisos com que enfeito os meus lábios, recolho gotas de beijos e conheço novamente o gosto da felicidade. Leio e releio os livros que mais gosto. Estudo, pesquiso e, principalmente, reflicto… A Vida! Mas há mais vida? Então não é o passado todo e este presente? Não. Falta o amanhã. Nem que seja apenas um dia, mas há-de ser feliz, pleno e sem lamúrias.
Um dia, uma amiga que veio passar uns dias comigo disse-me: “Quem tem um jardim como o teu não tem o direito de estar triste”. E porque haveria eu de estar?

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Bom Dia Esperança


Não sei se alguma vez já vos aconteceu, num dado momento da vossa estrada, encontrardes uma encruzilhada com várias direcções e sentirem o desânimo cair sobre vós. 
E agora, por onde sigo? 
Os projectos que trazíamos à partida parecem não encontrar eco em ninguém. Aquela nostalgia do “ontem” que trago sempre dentro de mim e que me fez pensar neste caminho à procura de amigos, julgo que já não existe nos outros, dissipou-se com o tempo. 
A saudade não encontra espaço e o silêncio passa por tantas recordações que pus à disposição de todos, numa disponibilidade de coração aberto. 
Será que a amizade, o tempo para os amigos agoniza impiedosamente? 
Os ideais foram desmantelados, murcharam pelo sol forte de uma vida difícil e já não há possibilidade daquela unidade que era bonita de se ver e, principalmente, de se sentir. O hoje, com todas as suas vicissitudes de atropelamentos, correrias loucas de sobrevivência, desencontros, tempos sem horas, amarguras, abafou a alegria e o gosto de viver de antigamente? 
Será que já não vos conheço, amigos de outros tempos? Já não sereis os mesmos? 


Tudo isto me fez pensar e parei para me organizar. Terei também eu mudado? Perdido a fé nos outros, na vida e em mim? 
No barco da vida quem deita fora a fé, deita também fora a esperança. Costumo ser optimista mas reconheço que marquei encontro com o desânimo e hoje estou como o tempo, enfarruscado, triste e sem brilho! A moleza tomou conta de mim… mas garanto-vos que ainda não é a capitulação. A esperança há-de voltar e levar-me mais longe ainda. 
A tarefa é grande, penosa e sacrificada. Não pelo trabalho em si, mas pelas respostas que não chegam. Mas este blogue continua a ser um desafio, uma luta e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade. 
Abri os olhos fechados por algum cansaço, limpei a face por onde escorriam as lágrimas e pus-me de pé! Caía a noite e ouvi rumores de vozes e passos cansados de gente desanimada, cansada, perdida talvez em encruzilhadas, como eu… Olhei a mochila caída a meus pés, tantos sonhos a sair de dentro dela, notas musicais de um outro tempo, de outro céu e de outro mar. A esperança sobrevive sempre que um adulto chora, disse alguém. 
A noite já vai longa mas vem aí a manhã que fará cantar de novo o meu coração. Quero abrir de novo as janelas da vida e saudar: bom dia esperança! 
Quem caminha espera e quem espera caminha. Jamais foi proibido agarrarmo-nos a um sonho para seguirmos viagem. O sonho impulsiona-nos para a vida. Amanhã, quero sorrir e sonhar, sonhar sempre. E se eles se desfolharem silenciosamente, ao menos ficarei com a esperança. Com essa flor que quero trazer sempre nos cabelos a lembrar-me que resistir é viver e desistir é morrer; farei caminho ao encontro dos outros, da alegria e da vida. As noites servem para isto: para encontrarmos, por entre as estrelas, o nosso rumo.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Esperança: É o Caminho


Do fundo do poço, ainda vejo estrelas a brilhar, mesmo atravessando túneis, pressinto a luz do outro lado. Mesmo no abismo, fico à escuta. E ouço passos. E onde há passos, há vida… “Penetrar no coração do mundo - escreve Lauro Dick - exige caminhar com ternura nos pés: a dor é muita e, quando menos se espera, abrimos a ferida que levava séculos de Medicina”. As estruturas do erro desmoronam, quando os engenheiros do Bem arregaçam as mangas e se unem num batalhão de entreajuda.
O joio vai definhando, quando os obreiros da Paz e da Justiça plantam searas nos campos do mundo, nos corações.
Há um despertar de vivências comunitárias, que deixa transparecer auroras. Encarar o futuro com esperança, ainda é o melhor caminho. Quantos anos tens? 15, 30, 60, 75, 80? Escuta bem: a tua vida vem de muito longe. Tem mais de dois mil anos. Tem a idade de Abraão. À sua frente, não há talvez qualquer certeza. Nenhuma garantia. Apenas uma escolha, uma intenção, uma promessa, um ideal. Uma esperança. Um aceno vigoroso. Só isso, nada mais. Deus chamou o patriarca e Abraão respondeu. O seu destino era incerto, mas partiu, deixando tudo: a sua casa, a sua terra, os seus amigos, o seu povo. Partiu deixando tudo para trás. Mesmo tudo? Não!   

Na sua Bagagem
Levava o essencial:
A Fé, a Esperança
Imensa coragem
E um grande ideal.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

A Dor é Fértil



A dor coloca-nos em contacto com a vida. Aproxima-nos de milhões de irmãos, cuja vida é continuamente temperada de dor.
Estive junto de um doente e fiquei impressionado com as suas atitudes e desejo de viver.
A vida é envolvente e dinâmica e muitas vezes só a valorizamos quando somos postos fora de circulação.
Como faz bem uma visita aos doentes, como nos torna mais humildes e mais compreensivos. Quem sofre precisa de mais amor que a pessoa sadia.
A pessoa feliz avança com coragem. Desde que a circunde a alegria, não precisa de acompanhantes. A quem está triste é que devemos dirigir a nossa palavra, reverenciando a sua dor, não sendo indiferentes, mas solícitos. Porque não encostar o ombro à cruz que o nosso irmão carrega, se amanhã a nossa pode ser tão pesada como a dele hoje?
Cantemos para os tristes um canto de alegria. Enchamos de esperança os seus ouvidos, embora saibamos que a realidade é sempre um dado estritamente pessoal e intransferível. Façamos cair por sobre o coração entristecido as sementes da alegria. Poderão proporcionar pelo menos instantes de optimismo, de esperança e bem-estar.


A vida verdadeira não está nos que soltam gargalhadas. Está nos que sofrem. Prova disso é que a felicidade é fugaz e a tristeza quase constante. Prova disso é que aprendemos, crescemos e nos aperfeiçoamos quando sofremos e lutamos; e nunca isso dá nos festins.
Aliás, a luta é o símbolo da vida. «Viver é lutar». Sem a luta não amassamos o pão de cada dia. A vitória e a superação pertencem aos que lutam.
Não falamos de grandes conquistas, mas de pequenas vitórias diárias, que não recebem o aplauso do público mas apenas da nossa consciência, que nos permitem andar de cabeça erguida, porque ficamos mais humanos.
Não importa que sejam coisas pequenas. Vencer é sempre grande coisa.
«Lindo», diz Dom Quixote, «é não ter de agradecer, humilhado, o pão de cada dia».
Bom é conquistá-lo com esforço e dignidade.