terça-feira, 13 de maio de 2014

Viver de Novo



Da janela do seu quarto, Marta aspirava com deleite os primeiros perfumes da manhã que vinham do seu jardim tão florido naquela primavera. Amadurecia, como os frutos, separando tudo de uma forma nítida, para ligar depois de uma forma mais íntima.
Marta gostava de vestir a sua alma na intimidade do seu jardim… que lhe dizia tanto. Os amigos interrogavam-na sobre a razão de necessitar tanto daquele espaço. Ela sorria e afirmava que a intimidade com alguém ou alguma coisa é amassada todos os dias como o bom pão. Dizia:
- Tenho pássaros dentro de mim que nunca aprenderam a voar e tento apontar-lhes caminhos…
Não. Eles nunca a entenderiam…
Marta correu completamente as cortinas e abriu as janelas do seu quarto de par em par. Adorava as manhãs em que o sol se escondia por de trás de um fino nevoeiro e coava uma luz amarela que transformava tudo numa poalha de oiro. Lembravam-lhe outras manhãs distantes na sua longínqua terra natal.


O verão chegaria em breve e, por isso, os odores eram mais fartos e sensuais. Não tão sensuais como os que guardava na sua memória, mas, ainda assim, tão sentimentais e perfumados que a faziam esquecer horas mais dolorosas cheias de ecos distantes e de emoções nunca esquecidas. Nas suas mãos, a cada manhã, pesava a alegria destes momentos e procurava estar inteira no mundo.
Era uma mulher de Fé, Fé também esta que os amigos não entendiam mas que admiravam quase como uma certa inveja.
Os pássaros entoavam uma sinfonia magistral e Marta sentia-se apaziguada com a vida e com as saudades. Era como começar o dia com uma “Acção de Graças”. E havia tanto para agradecer, apesar de tudo. Celebrava a vida no lavar do rosto daquela manhã.
As amigas confidenciavam-lhe:
- Gostava de ser como tu…
- Em quê? Não tenho nada de especial…
- Tens Fé, constróis sonhos sobre sonhos, mesmo quando eles se desmoronam… Para ti, amanhã, tudo vai ser melhor... Como consegues isso num tempo em que ninguém já segura as rédeas? Vejo-te sempre de pé, maior que todas as tuas lutas, acreditando na promessa de outros dias felizes.
- Sabes que não é bem assim… Mas sim, tenho Fé porque tive a felicidade de ter tido uma infância e juventude rodeada de amor. Pais, familiares e amigos atentos ao meu crescer. Nasci num país fabuloso de sol onde a vida cheia de simplicidade nos dava tempo para desenvolver o espiritual. Arquivava na minha memória todo o bem que ouvia e via e a minha alma foi-se enchendo como um vaso: pouco a pouco! A Fé não aparece de um dia para outro… É uma longa construção que dura anos, ou antes toda a vida, e que tem de ser cuidada diariamente.
- É preciso ter a tua paciência…
- Não! Apenas pautar a vida pelo que se acredita e dar-lhe um sentido.
- Tens uma alma fantasista que te faz ver sempre horizontes largos…
- Nasci neles, física e sentimentalmente. Não há vida mais triste do que ter uma mentalidade mesquinha e tacanhez de coração.
- Talvez tenhas razão… Aqui viviam-se outros tempos e possivelmente não tivemos tempo, nem oportunidade, de crescermos por dentro, como costumas dizer.
- Mas ainda estás a tempo de o fazer…
- Agora? Pensava que havia um tempo para crescermos…
- Fisicamente é claro! Noutra dimensão há sempre novas sementeiras nas nossas vidas e condições de colheitas também…
Marta sorriu ao recordar esta conversa. Gostaria que os seus amigos entendessem que a vida é tão diferente daquilo que eles pensavam. 


Inclinando-se no parapeito da janela vislumbrou ao fundo, no jardim, uma grande mancha vermelha… Rosas, as rosas vermelhas que adorava. Tinham florido nessa noite. Vestiu depressa o roupão azul de verão e correu feliz ao seu encontro. Não podia prolongar a vida nem por um minuto apenas mas podia torna-la maior e mais bonita. Marta aspirou devagar o perfume das rosas como se bebesse pequenos tragos de um vinho saboroso. Era assim que ela amava a vida: sentir-se rainha por alguns momentos e pensar que morrer era o que menos importava quando se viveu intensamente.
- Está-se bem aqui no teu jardim. Entendo agora porque gostas tanto dele…
Voltou-se rápida.
- Oh Carlos, estavas aí…
- A Maria deixou-me entrar e disse-me que estavas no lugar do costume.
- Já tomaste o pequeno -almoço?
- Não, mas não te preocupes…


- Não há que ver! A Maria faz umas torradas deliciosas com manteiga e mel. Enquanto me visto ajuda-a a colocar a mesa pequena do pátio aqui, bem no meio do jardim. Repara na moldura que nos cerca: gladíolos, rosas, jarros e as lendárias hortenses…
- É e será um pequeno-almoço cheio de poesia e…
- Eu não me demoro… - Atalhou Marta rapidamente sem deixar que Carlos concluísse o seu pensamento.
Quando saiu do seu quarto passou pelos quartos dos filhos. Ana, uma executiva responsável e um pouco o seu retrato, já tinha saído para o trabalho. Marta olhou com carinho aquele espaço tão feminino, onde cada objecto fora escolhido com cuidado e disposto com elegância e arte.
Em cima do cadeirão, junto à janela, estava um livro com um marcador dentro. As delícias de Ana: os livros, tais como as suas. Há ligações que não se consegue explicar.
Pegou no retrato que estava na mesinha de cabeceira e olhou com amor um Zé Manuel saudável e sorridente. Ana gostara sempre daquela imagem do pai. É contra nós que corre o tempo mas Marta acreditava que só se morre quando mortos na memória daqueles que nos amaram. Ana era a menina bonita do pai. Bebia-lhe as palavras e os ensinamentos mas ele partira sem saber que a filha tinha concretizado os seus sonhos profissionais e era uma jovem encantadora.

Marta fechou devagarinho a porta do quarto, deixando atrás de si um espaço mergulhado numa doce penumbra cor-de-rosa onde pairava uma fragrância fresca de mulher.
Marta pensava numa frase que lera há muito tempo, não sabia mesmo onde: ”Nós somos todos feitos de amor e para amar.” Nesse momento esbarrou com o filho que saía do quarto como um furacão.
- Mãe, depressa, um beijo, já estou atrasado! – E como um meteorito correu pelas escadas deixando atrás de si um rasto de confusão e desordem.
- Ó Alex, e o pequeno- almoço?
- Tomo na faculdade. Não tenho tempo a perder.
E todos os dias repetia-se esta cena. Marta sorriu compreensiva…
Tentou abrir a porta do quarto do filho e foi com dificuldade que o conseguiu. Um campo de batalha não estaria pior… Montanhas de roupa suja; a cama, desfeita, já não tinha lençóis; e, por todo o lado, havia loiça suja. Um copo com resto de sumo aqui, uma chávena ainda com chá noutro lugar e junto ao computador um prato com sobras de comida.
Não havia dúvida que Alexandre fazia incursões nocturnas à cozinha e transportava para o quarto tudo o que encontrasse no frigorífico. Era o desespero da velha Maria.
Marta deliciava-se com este filho tão parecido com o Zé Manuel. E não era só fisicamente. Até na voz. Há poucos dias ele falara-lhe do quarto e ela, na sala, um pouco alheada, pensou: “É o Zé Manuel que chegou” Que disparate! Quando arrumaria o coração e as saudades?


(continua)




quarta-feira, 23 de abril de 2014

Estrela


Sempre que olho fixamente o céu à noite, parece-me ver uma estrela a mudar de sítio.
Deve ser, provavelmente, porque olho tempo de mais. E os meus olhos que buscam, quase na maioria da vezes, uma estrela cadente, acabam por ver o que não existe.
Os olhos tecem os sonhos da alma. São o rei do coração.


Desampara-me saber que existem tantas estrelas. Que qualquer uma delas poderia ser a minha luz, o meu eixo giratório. E sobre ele rodaria, incandescente e única, a minha órbita. Em adoração mútua. Porque é tão bela uma estrela como um planeta que em seu torno gira. Um ilumina, outro obscurece, um está parado, o outro baila em redor. Mas ambos têm o mesmo mistério, toda a dimensão que os une.
E o meu negro céu, a abóbada celeste que me embala como um regaço doce de mãe está repleta de pontos pequenos a brilhar.
Mas tens que ser tu, logo tu, aquela que se incendiou... Aquela estrela tão nova e tão poderosa que me abraça com uma força gravitacional incontrolável. Essa estrela que me atrai e assusta. Que me aconchega e queima. Que me ilumina e ofusca.
Somos demasiado diferentes para nos entendermos. Somos demasiado iguais para sermos diferentes. Somos demasiado poderosos para nos unirmos na Terra.


E sabemos que lá longe, muito longe, existe uma galáxia. Um mundo novo que ainda ninguém descobriu. Quando alguém conseguir lá chegar, quando alguém descobrir a ciência de ver com os olhos, aquilo que não existe, perceberá que, nesse espaço, a dimensão é imensa e especial. Tentarão falar... Mas só versos ecoarão por entre o nada. Tentarão compor melodias... Mas só os acordes da nossa música rasgarão o silêncio. Tentarão ver... Mas aí... Aí, só vão ver uma luz inebriante que os afasta.
Vinda de uma estrela enorme e bela, de fogo de Arte, que levava nos braços um planeta suave e meigo, de gelo e Magia.
Vinda de uma estrela que, afinal, tinha mudado de sítio.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Seriedade


Luisa passava uma época atormentada com a contradança de empregadas a entrarem e a saírem. Não percebia o que se passava… Elas vinham todas com referências de pessoas ilustres. No entanto, depois, o seu comportamento deixava muito a desejar. Eram as suas porcelanas e cristais que apareciam partidos, a conta da mercearia com produtos que ela não pedira… Enfim, um inferno.


Faziam de tudo para serem despedidas ao fim de poucos dias mas exigiam o ordenado por inteiro!
O marido dizia-lhe muita vez:
- Tens um coração mole e elas conhecem a tua fraqueza.
- Eu estou é cansada deste corrupio e não sei como os antigos patrões passam referências tão enganadoras…
- E sabes se são eles quem as passa? Devias fazer o que aconselha a Leonor, ligar para esses números de telefone que elas apresentam nesses cartões pomposos e indagar sobre a sua veracidade. Mas não, admites logo o pessoal sem saber onde elas penduram as botas.
- Espoliam-me como ladrões de estrada e não tenho quem me sirva… - Lamentava-se Luisa.
Nem de propósito, no dia seguinte Leonor telefonou-lhe para saber como paravam as modas.
- Não tenho ninguém que me sirva, Leonor! Estive a pensar e vou limitar o pessoal a uma só. Quero uma empregada que faça o serviço todo de casa. Meto uma mulher-a-dias para as limpezas e mando a roupa à lavandaria…
- Então talvez tenha algo que te sirva. No jornal de hoje vem um anúncio de uma senhora viúva que pretende um lugar como o que tu ofereces.
Luisa não quis saber de mais nada e telefonou de imediato para a senhora “de respeito”. Quando chegou ao seu contacto perguntou-lhe se estava disponível para se apresentar ao serviço o mais breve possível.
A mulher, de nome Rita, apresentou-se para uma entrevista dois dias depois. Luisa gostou do seu aspeto: alta, magra, já com alguns cabelos grisalhos, um ar simpático mas sério; como se a seriedade tivesse cara.


Luisa tinha ressonâncias de alegria dentro de si e pensava que podia ir agora mais descansada para o seu escritório.
Ao jantar o marido ficou surpreendido por múltiplas razões: por já haver uma empregada em casa como se alguém tivesse estalado os dedos, pelo assado primoroso apresentado com classe, contrariando ar bastante humilde, quase rústico, de quem o servia.

- Espero que desta vez tenhas primeiro colhido informações. - Dizia-lhe o marido.
- Ah, não foi preciso! Mal lhe abri a porta vi logo que era uma pérola.
- Só se for falsa…
- Não digas isso. Tivemos uma conversa que me elucidou bastante sobre o seu carácter.
É viúva, o marido morreu no Brasil. Durante algum tempo viveu com o filho único que era funcionário de um banco e que faleceu num acidente…
- Mulher, ela matou toda gente para que não haja ninguém que possa confirmar a sua verdade. - Concluía o marido insistindo em manter a dúvida.
- Estás a ser injusto. Ela até tem umas boas economias lá na terra mas, para não ser pesada a ninguém, resolveu trabalhar. É de Fornos e facilmente poderemos averiguar se falou verdade.
- E deu referências?
 - Bem, dar não deu, mas disse-me que podia perguntar aos Menanos, ao Dr. Bettencourt e até me falou no nome de alguns ministros. Todos a conhecem mais à sua família…
- Que já morreu…
- É boa pessoa e até acrescentou que se o ministro (o último onde ela trabalhou) soubesse que ela estava a servir, mandava-a para a terra com uma boa mesada.
- Qual ministro? Só se for o da Saúde para a internar… Luisa, tu acreditas nisso tudo?
- Olha, pelo menos cozinha como viste…

Luisa sacudiu os pensamentos negativos que o marido lhe sugeria e acalmou-se pensando que, no dia seguinte, deixaria a sua casa bem entregue.
À noite, quando chegaram os dois a casa, um perfume de guisado espalhava-se no ar como um convite irrefutável das qualidades culinárias da dona Rita.
- Luisa, esta mulher foi toda a vida cozinheira. - Afirmava com convicção o marido.
Depois do jantar Luisa foi para cozinha conversar e tentar descobrir um pouco mais sobre a empregada. Entabularam uma conversa muito curiosa. Dona Rita entusiasmada com o interesse da patroa “esticava-se”…
- A senhora conhece Fornos, a minha terra?
- Sim conheço, já lá estive há alguns anos.
- Então devia conhecer o Barão de Fornos que era meu tio.
- Era seu tio?
- Era sim senhora mas, quando ele morreu eu estava no Brasil e por isso fiquei sem nada.
- Então tem viajado muito…
- Bastante… Quando o meu marido era vivo corremos a Europa quase toda até fomos numa viagem de recreio à Suíça no “Niassa” porque o comandante era nosso amigo.
- No “Niassa”? Tem a certeza?
Dona Rita atrapalhou-se e pensou que tinha ido longe de mais.
- Foi, foi. Até a minha irmã mais velha foi connosco… – Disse, agora com menos convicção.
- E a sua irmã vive em Fornos?

- Não, não… Ficou lá pela Suíça e nunca mais deu notícias.
Acabou de arrumar a cozinha e disse quase desabridamente:
- Vou deitar-me, minha senhora.
Luisa quando se deitou contou ao marido a história que ouvira da cozinheira.
- Com que então no “Niassa” e vá lá, desta vez não matou a irmã… Luisa, tira informações sobre esta mulher, ela é uma aldrabona.
-Coitada, é só para não parecer uma criada de servir.
Mas no dia seguinte a porteira veio ter com ela e perguntou-lhe:
- A senhora conhece bem a sua empregada?
- Bem, de certo modo…
- É que ela faz pela janela uns sinais com os dedos e depois recebe visitas na sua ausência.
Luisa quando entrou em casa chamou a dona Rita:
- Já lhe disse que não quero visitas na minha ausência.
- Ah, elas até eram para a senhora… - Disse manhosa.


À noite na cozinha continuava a desfiar os seus altos conhecimentos à procura de um estatuto de nível.
Luisa começava a duvidar e ainda mais a dúvida se consolidou quando a porteira veio ter com ela e confidenciou:
- Hoje apareceu uma mulher com um saco de oleado, andou na rua a mirar as suas janelas e só entrou quando viu os tais sinais.
Luisa desabafou com Leonor.
- Eu se fosse ti mandava-a já, mas mesmo já para donde veio. E que isto te sirva de lição.
O marido logo concordou com Leonor.

Finalmente convencida, Luisa chamou a dona Rita, pagou-lhe o ordenado por inteiro, e despediu-a.
A Empregada aceitou logo, correndo pelas escadas abaixo e levando a sua parca bagagem.
No fim-de-semana seguinte Luisa resolveu fazer uma limpeza a fundo à casa e deu conta da “limpeza” que dona Rita fizera nos dias que lá trabalhara.
Telefonou aos ilustres empregadores mas ninguém conhecia nenhuma Rita.

Procurou de imediato o jornal onde aparecera o anúncio e telefonou para o número através do qual tinha contactado a ex-empregada. Qual não foi a sua surpresa ao saber que o número pertencia a uma tabacaria e de onde a informaram que apenas tinham consentido receber respostas a um anúncio de emprego para ajudar uma senhora viúva, de “muito respeito”…

quinta-feira, 27 de março de 2014

Pergunta-me



Pergunta-me
Se ainda és o meu fogo
Se acendes ainda
O minuto de cinza
Se despertas
A ave magoada
Que se queda
Na árvore do meu sangue

Pergunta-me
Se o vento não traz nada
Se o vento tudo arrasta
Se na quietude do lago
Repousaram a fúria
E o tropel de mil cavalos



Pergunta-me
Se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
Junto das pontes enevoadas
E se eras tu
Quem eu via
Na infinita dispersão do meu ser
Se eras tu
Que reunias pedaços do meu poema
Reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
Pergunta-me qualquer coisa
Uma tolice
Um mistério indecifrável
Simplesmente
Para que eu saiba
Que queres ainda saber
Para que mesmo sem te responder
Saibas o que te quero dizer

- Mia Couto in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

terça-feira, 11 de março de 2014

Encontro de Átomos


Inês guardou na sua pasta os exames médicos que a doutora Cecília lhe entregara.
- Obrigada por tudo doutora.
- Tudo? Mas eu não fiz nada porque a Inês não permite. É uma pessoa invulgarmente dinamizada eu diria até, desassossegada. Sofre da doença do “mais”…
- Não brinque doutora Cecília… O jornal precisa de mim para esta grande reportagem e já há diversas conferências marcadas com pessoas de todo o mundo que estão envolvidas neste trabalho social. Vão comigo mais dois elementos do jornal e a viagem é para daqui a dois dias.
- E se em vez de um tumor benigno fosse maligno, Inês? Não teria a capacidade de parar, ouvir o que os médicos lhe dizem, escutar a própria vida?
- Não sei… Com certeza que na Índia também há hospitais bons que me possam ajudar se a situação se alterar…
- Penso que sim mas, não é a mesma coisa. Aqui está em casa em todos os aspetos e o apoio da família e amigos é muito importante.
- Espero regressar a tempo de resolver a situação. Depois de ter cumprido a minha obrigação profissional…
- Diga antes, o seu sonho…

Inês sorriu e o seu olhar já estava longe dali e de si própria. Meteu-se no carro pronta a ir fazer as malas para evitar aquele desconforto de já não se sentir em lado nenhum…
Os pais já não se surpreendiam com estas viagens que Inês fazia a cada passo em serviço. Mas agora para a Índia… tão longe, o coração ficava apertado, sem dúvida.
Inês sossegava-os:
- O tempo passa depressa e prometo que todos os dias falo convosco.
Inês gostava da sua profissão que, em cada ano, lhe oferecia uma aventura feita de rostos, de histórias, de muitas palavras a correr como um rio, compêndios, apontamentos e fotocópias.
Por diversas vezes já fora premiada por reportagens que fizera quer para o jornal, quer para a televisão.
Já no avião, Inês não largava o seu computador. Os colegas riam-se dela:
- Aproveita para dormir umas horinhas, a viagem é muito longa.
- Não consigo dormir no avião. Aproveitem vocês, estou já a trabalhar na minha reportagem.
Contudo, Inês passou algumas horas pelo sono…

Túmulo do imperador mughal Humayun, construído em 1570, serviu de inspiração para o Taj Mahal. New Delhi, Índia

Quando chegaram a Nova Deli, capital da Índia, a cidade foi uma surpresa agradável para os três, bem como o luxuoso hotel onde ficaram hospedados.
Avisados que depois do jantar haveria a conferência de apresentação, apressaram-se a tomar um duche para espantar cansaços e vestirem-se adequadamente.
Ao jantar, numa mesa de dez pessoas tornada em Nações Unidas: ouvia-se falar em espanhol, italiano, inglês, francês e, claro, em português.
A seu lado, sentou-se um italiano, também ele jornalista, que desportivamente se apresentou:
- Ciao, me chiamo Giovanni, de Riomaggiore… Scusi, o meu portuguese non è muito buono. È una língua molto difficile…
Perante aquela algaraviada proferida de forma tão desajeitada e simpática, Inês nem exitou e disse sorridente em bom italiano:
- Não há problema, eu falo italiano!
O alívio do seu interlocutor não se fez esperar.
- Meu Deus, mas isso são ótimas notícias! – E a partir daí a conversa entre os dois seguiu na língua mãe do jornalista italiano.
É claro que, entre todos os que sentavam naquela mesa, surgiram as inevitáveis dificuldades de comunicação, mas nada que um sorriso e umas palmadinhas nas costas não resolvessem.
Todos tinham a consciência que era um privilégio estarem ali, convidados expressamente para um mês de trabalho em várias províncias da Índia.

No dia seguinte, vários autocarros levaram jornalistas e conferencistas a fazer uma breve visita à capital da Índia. Giovanni, que já conhecia o país, sentado ao lado de Inês, era o seu guia pessoal. Diante dos olhos de Inês surgia o limite entre a realidade a bater-se vencedora com a ficção e os pés de barro dos quais ia dando conta em vários pontos deste circuito, preparado para encantar. Mas a tradição pesa e oferece imagens, por vezes, nada agradáveis.
Giovanni dizia-lhe:
- Quem vem à Índia, nunca mais regressa igual. E é verdade!
- Foi o que te aconteceu?
- Sim, adorei o povo, as suas tradições tão marcantes, a sua história e cultura religiosa tão pouco conhecidas dos ocidentais. A Índia ou se gosta e ama-se de vez ou se rejeita e tem-se a vontade de pegar o primeiro avião para voltar para casa.

Inês sentia-se dentro de um filme, daqueles filmes indianos que ela sempre detestara. Pensava que a sua vontade talvez fosse a segunda hipótese. No entanto, nunca fora de desistir e entendia perfeitamente que o bem e o mal convivem amiudadas vezes paredes meias, assim como o amor e ódio, o lar e a selva.
Giovanni falou-lhe de Mahattma Gandhi, esse homem extraordinário que amou o seu povo precisamente porque reconhecia que eram presas fáceis para a morte que os rondava sempre. Pessoas fustigadas sem piedade por toda a espécie de pobreza, aceitando essa vida miserável como um destino. 

Rio Ganges em Varabasi, Uttar Pradesh, Índia
- Tenho um projeto, talvez como Gandhi… Quero ajudar este povo na medida das minhas possibilidades. Em Uttar Pradesh colaboro num empreendimento que está a erguer uma aldeia sociocomunitária auto-suficiente, que, aos poucos, está a transformara vida de um pequeno canto daquela província tão pobre…
- Uttar Pradesh? Mas é aí que vamos fazer a nossa reportagem! - Inês ficara curiosa com o projeto de que Giovanni lhe falara. A ideia de poder testemunhá-lo em primeira mão deixou-a radiante.
“Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra”. Uma citação muito bonita mas que, às vezes, não tem significado.

Universidade La Martiniere, Lucknow, Índia (c) Ahmad Faiz Mustafa
Inês estava cada vez mais ansiosa para ver a obra de que tanto ouviu falar naqueles dias. As horas voavam em antecipação do momento de chegada à província de Uttar Pradesh. A viagem passou por um voo entra Nova Deli e Lucknow, a cidade dourada da Índia e capital da província. Depois seguiu-se uma longa viagem por estrada, para norte, em veículos ao serviço do empreendimento com que Giovanni colaborava. A localidade mais próxima era Nighasan, não muito longe da fronteira com o Nepal.
O aldeamento, esta palavra fazia todo o sentido, fora construído de raiz. Inês e os seus colegas ficaram espantados com aquela “pequena cidade”. De facto, a única palavra que liberta toda a espécie de prisão, é o amor. E ali notava-se, para além de muito trabalho, o amor e a dedicação.

Giovanni e os imensos amigos convidados a oferecerem um ano ou dois de trabalho comunitário em Uttar Pradesh, tinham sido fantásticos, quase operando um milagre.
Não faltava um pequeno hospital, bem apetrechado, um infantário, um lar de idosos, duas escolas para além de habitações sociais destinadas às famílias pobres, que naquela zona eram quase todas...
Inês desdobrava-se em visitas e entrevistas à população local, quando necessário com a tradução de Giovanni já razoavelmente fluente em hindi.
- Estou a adorar fazer esta reportagem e de ter a oportunidade de dar a conhecer ao mundo a obra que está aqui a ser feita.
- Não precisamos de aplausos, apenas de muita ajuda e amor. - Riu-se Giovanni.

Os dias foram correndo céleres e Inês constatava que já amava aquela obra e gostava de estar ali. Percebia também, na sua sinceridade interior, que havia outros laços que iam crescendo igualmente. E no silêncio dos corações um sentimento muito seguro foi cimentando-se na reciprocidade. Há coisas que não se podem esconder, tal é a sua intensidade.
Os outros sorriam e compreendiam.
Um dia Giovanni sentiu-se mal. Ficou muito pálido, parecia a imagem da morte. Chamaram o médico que habitualmente o assistia.
- É tempo de voltares outra vez a Itália. Há tratamentos que não podem parar.
A situação desnudava-se perante Inês confrontada com a perceção inegável de que algo de grave se passava.
A reportagem estava pronta e os colegas partiriam dentro de dias. Mas os planos de Inês eram outros, estava determinada em seguir com Giovanni para Itália. Todo o seu material tinha sido enviado para a sua redação e as imagens recolhidas seguiam com o cameraman que havia acompanhado o grupo para serem editadas em Portugal.


- Não quero que alteres os teus planos por minha causa. - Murmurava-lhe Giovanni.
- O meu dever profissional está cumprido e agora há outro que se impõe. Se tens de lutar contra alguma coisa eu serei tua aliada! - Afirmou Inês decidida.
Na viagem de avião até Roma houve espaço e tempo para abrirem os seus corações.
- Padeço de leucemia há algum tempo mas o desânimo nunca me afetou. Continuei com a mesma determinação no trabalho do aldeamento a que eu chamo de “Mio Amore”.
Inês brincou:
- Ah, pensava que era eu o teu amor. Riram-se os dois.
Após um momento partilhado, a expressão de Inês tornou-se séria e afastando docemente os braços confessou num murmúrio:
- Tenho dificuldade em encontrar as palavras certas sem te causar mais preocupações. Na véspera de embarcar para a Índia, a minha médica entregou-me os resultados de exames que fizera e o vaticínio era cancro da mama, embora o tumor fosse benigno. Comprometi-me com ela, no meu regresso a Portugal, a fazer o devido tratamento.
Giovanni e Inês abraçaram-se num gesto onde para além do amor, havia cumplicidade, intimidade e partilha.
- Havemos de vencer! – Disse Giovanni.
Ao chegarem a Roma, Giovanni foi internado no seu hospital para fazer vários exames. Antes ainda confiou Inês aos cuidados dos pais transmitindo-lhes o carinho que tinha por ela que um pai e uma mãe tão bem sabem reconhecer. Nascia um vínculo que unia aqueles seres marcados pela doença e pelas preocupações mas também por um sonho grandioso de fazer muita gente feliz.
O avançar dos dias parecia trazer mais calma a Giovanni e a Inês mais impaciência.
Inês passava todo o tempo possível com o seu amore no quarto de hospital onde continuava internado. Num desses dias, receberam a visita de uma médica que Giovanni apresentou de imediato.

Cupido e Psyche, por Antonio Canova (c. 1797) - Palazzo Marini, Milão.

- Minha querida, esta médica, uma grande amiga minha, é especialista na área do teu problema e gostava de te fazer um exame mais cuidado. Porquê esperar o teu regresso a Portugal? Já que estamos os dois aqui façamos uma revisão aos nossos casos.
Inês aceitou pensando que no último mês, a caminho do segundo, tinha tido uma vida sem repouso, numa vertigem constante de alta velocidade e fortes sensações.
Era preciso parar como dizia a doutora Cecília.
Nos dias seguintes os casos clínicos de Giovanni e Inês foram tema de conversa em vários núcleos hospitalares do país. Os médicos conferenciavam, discutiam opiniões com outros especialistas, e ofereciam possíveis soluções. O cancro de Giovanni e o tumor de Inês haviam regredido. No caso de Inês o tumor havia desaparecido por completo. No de Giovanni as melhorias eram inusitadas e inesperadas, aproximando a cura total.
Os clínicos questionavam qual seria a explicação. No caso de Inês era fácil entender o que se passara, afinal, por vezes, os tumores benignos regridem. Mas a leucemia de Giovanni era um cancro declarado! Não era muito clara a sua cura… Iria certamente ser motivo de vários estudos futuros.
Aos dois apaixonados pouco interessavam as explicações oferecidas pelos médicos, marcadas mais pelas dúvidas do que pelas certezas. Inês, abraçada a Giovanni, dizia-lhe:
- De tão longe vim aos teus braços abertos.
- Posso afirmar o mesmo, meu amor. Os médicos não entendem o que se passou mas eu sei: os nossos átomos deixaram de ter preocupações e uma espada sobre a sua existência. Ficaram cheios de projetos, de sonhos e, finalmente, de amor! Deixamos de pensar em nós para pensar nos outros. Deixou de haver espaço para a doença… Entre os nossos átomos houve uma secreta biogénese, essa coisa estranha a que se chama comunhão de corações.


- Foi apenas o Amor que nos salvou.