quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Gabriel

Na varanda do quarto do hotel, Gabriel ouvia os ruídos da noite. Fechou os olhos e os sons materializaram-se na sua memória, transportando-o à infância.
Eram iguais. Incrivelmente iguais. O dialecto falado pelos negros que passavam sem pressa, o vento das folhas das palmeiras, mas tão diferentes dos ruídos de Lisboa ou doutra capital europeia.
Cada cidade, pensou, cada lugar, tem um ruído de fundo específico, como uma música que lhe pertença e seja tocada, interminavelmente, ficando ligada às coisas, às pessoas, às árvores.
Aquele era o som de fundo que ouvira durante toda a sua infância e juventude... Depois, partira para Lisboa, onde passara o resto da sua vida E aí, o ruído era outro.
 
Ainda estava para saber o que lhe passara pela cabeça para se meter naquele avião, em Maputo, e ir ao Norte de Moçambique, em visita ao lugar onde crescera. Não era do tipo saudosista e sabia que essa visita iria, inexoravelmente, prejudicar a suas memórias ciosamente guardadas. Tal como uma fotografia tirada acidentalmente sobre outra, por não se haver rolado o rolo fotográfico. Com a desvantagem da última, mais nítida, anular a primeira, aquela que já fazia parte integrante do passado.
Não devia ter vindo pois aquele lugar já não lhe pertencia As coisas escapavam-se-lhe quando tentava encontrá-las, adquiriam novas formas, novas maneiras de ser e de estar, que nada tinham a ver com o que queria que fossem.
Excepto os sons. Esses eram os mesmos. Excepto a noite quente, excepto os cheiros familiares.
Será que o ouvido e o olfacto são tão importantes como a vista na recolha das memórias? Na varanda do Hotel, sentiu uma imensa angústia invadi-lo. Como a que se sente perante um amor perdido e que não se queria perder. Como a que se experimenta no reencontro de um amigo íntimo de infância, que entretanto envelheceu e nos olha com olhos curiosos e distantes.

Sentiu o suor da noite quente, desceu e foi para a rua. Dirigiu-se, uma vez mais, para a casa onde crescera, tentando que ela lhe falasse e o acolhesse. Ali estava ela, decrépita, abandonado o jardim e as árvores, sem passado, nem futuro, simplesmente morta. Como casa que foi casa mas que já o não é. Aliás, reflectiu, como casa sem lugar aqui, tão desajustada como eu, vagamente europeia e totalmente rejeitada.
Em frente, no terreno vazio, tinha aparecido um bar e restaurante que não existia no passado. Esse sim, perfeitamente adaptado aos novos tempos, coberto com folhas de palmeira e com algumas mesas espalhadas por baixo da grande mangueira. Pelo menos serviam caranguejos e camarão, sempre bons como dantes.
Entrou e procurou alguém. Levou tempo a ver o velho sentado no canto, com a garrafa de cerveja na mão, que o olhava com olhos curiosos. Pediu os caranguejos e a cerveja e voltou a olhar para o velho.

Os olhos curiosos não o largavam e pareceu-lhe vislumbrar uma espécie de sorriso
- Sabes quem eu sou?
- Sei, disse o velho lentamente, és o filho do senhor inspector e vieste ver a tua casa.
- Mas já não é a minha casa- disse Gabriel. Foi aí que o sorriso se abriu
- Para ti é sempre a tua casa, senão, não tinhas vindo.
Esquecida a cidade, Gabriel reencontrava o seu lugar, a sua infância, as suas memórias. Começavam naquela casa, prolongavam-se no terreno vazio e terminavam no sorriso daquele velho.
- Vamos comer caranguejos, disse. Já passou tempo demais.

 - José Alves Pereira in "Poemas & Retratos"



"Nunca se deve regressar aos sítios onde fomos muito felizes"
 - Graça Machado in "Feitiços"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Feliz 2015!!!

 
Às vezes o rio transborda (talvez fosse o BONS SINAIS) alagando margens e não dando espaço para mais nada! Publicar um livro não é fácil… É o antes, o durante e o depois… Mas, quando o sonho se realiza e o leitor afirma que gostou do que leu, todas as canseiras ficam esquecidas.
Volto ao blogue deixando o FEITIÇOS a cumprir a sua missão ao sabor das ondas sem praia.



O começo de um ano NOVO, prontinho a ser estreado, é mais do que voltar ao quotidiano. Exige um momento próprio como se pisássemos um terreno privado, quase sagrado.
Há quem faça listas, extensas, quase impossíveis de realizar. Também já as fiz num outro tempo no qual a maturidade era ainda um fruto desconhecido para mim.
Este ano não comi as doze passas à meia-noite, entendi que fazer doze pedidos prontinhos a serem atendidos era quase fazer do céu um super mercado!
O resto virá por acréscimo, sempre ouvi dizer! Depois da saúde, imprescindível mesmo, é o AMOR. O amor gratuito ocupa espaços vazios em todos os corações. Transporta-se nos ombros da alegria e, por vezes, sabe a pão acabado de cozer.
Gostaria de abraçar o mundo inteiro neste começo de ano acabadinho de ser estreado.
Gostaria que os homens entendessem que caminham na mesma estrada e que a grandeza do seu final depende tão somente daquilo que se deu com amor.



A vida chama por nós… Vamos juntos?
 
Feliz ano de 2015!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Apresentação do meu livro "Feitiços"

Queridos Amigos,

Há cerca de 3 meses interrompi a publicação deste conto romanceado que tenho vindo a partilhar convosco. Esta longa ausência justifica-se pelo pouco tempo que tenho tido disponível por ter estado a ultimar os últimos pormenores para a publicação do meu livro Feitiços que será apresentado no próximo dia 29 de Novembro, sábado, no Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia, uma ocasião que muito gostaria de partilhar convosco.

A menina que sonhava escrever um livro cumpriu o seu sonho… A vós amigos, peço-vos que o recolham nas vossas mãos com muito carinho porque ali, nesse livro, está o que tenho de mais precioso: a minha vida!!

Conto com a vossa presença.
 
Um forte abraço a todos.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

A Ponta da Meada



(Continuação de Ana)


A vida dá tantas voltas, tecendo um manto com uma infinidade de fios entrelaçados, que acaba por não se saber onde está a ponta que deu início a tudo tal é o emaranhado e a confusão de trajetos mal combinados. Alguns, é evidente… E é neste tear da vida de muitas e variadas cores que, às vezes, mesmo sem intenção, se vai buscar a pontinha possivelmente mal acabada que ficou de fora do belo tecido cruzado e recruzado por tantos acontecimentos.

Era o que Margarida, uma das amigas próximas da Ana, pensava quando na paragem esperava pelo autocarro. Aquela chuva miudinha e irritante punha-a nervosa. Em pleno verão apanhara toda a gente desprevenida.
O dia começara quente e cheio de sol e ninguém esperava pela surpresa. Se não tivesse pressa até adoraria caminhar um pouco, sentindo as gotinhas pequeninas escorrendo-lhe pelo rosto. No entanto, a Maria Inês, que completava este terceto de amizade, estava à sua espera na pastelaria do costume e ela detestava chegar atrasada.
- E o autocarro que nunca mais chega! - E parecia um pião andando de um lado para outro, pondo a cabeça à roda de todos quantos ali estavam.
Esticou-se o mais que pôde para ver a rua até ao fundo:
- Lá vem ele! - Porque será que os autocarros chegam sempre atrasados quando temos hora marcada para alguma coisa? Nunca entenderia!
Quando chegou à pastelaria Maria Inês já ia no segundo pastel de nata.
- Ainda bem que chegaste amiga pois iria responsabilizar-te pelos quilitos a mais que em breve danificariam a minha silhueta…
- Maria Inês, já não és uma miúda, tens de saber controlar-te. Porque é que em vez de toda essa doçaria não pediste uma torrada? - Ralhou Margarida.
- Queridinha, achas que o meu estômago se contentaria com uma simples torrada quando estou preste a conhecer algo bombástico?
- Fala baixo! Este é um assunto que não quero que chegue aos ouvidos de ninguém.
E Margarida corria a pastelaria com olhar atento à procura de algum rosto conhecido.
- Vá, desembucha, antes que eu mande vir outro pastel de nata.
- Não sejas criança. O assunto é grave e confidencial.

Maria Inês sentou-se melhor na cadeira, aplicou todos os seus sentidos e preparou-se para ouvir a grande revelação.
- Sabes, – disse Margarida baixando a voz e olhando para todos os lados - o Ricardo é casado e tem dois filhos.
- O quêêeeee?!? - Quase gritou Maria Inês. - Não pode ser!
- É o que ouves. Também eu fiquei sem pinta de sangue quando o soube.
- E a tua fonte de informação é segura, de confiança? - Insistia Maria Inês.
- Como diz a minha avó, a mentira tem perna curta. E depois há fios da meada que ficam um pouco à mostra e daí…
- Mas qual meada? Não percebo nada…
- Esquece. O que eu quero dizer é que o meu amigo outro amigo tem e assim por diante. Aquilo que se julga bem guardado passa de um para outro quase sem querer. Basta haver um fio condutor que tudo coordena e vai dando sentido à trama, montando o puzzle.
- Afinal quem descobriu tudo? - Maria Inês roía as unhas.
- A mulher do António é grande amiga da Tonicha que namora com o Victor. E a Tonicha terá comentado com o namorado…
- E é claro que este pôs tudo na praça. Ainda falam das mulheres… Havia de ser comigo.
- Acalma-te, não foi nada assim. O Victor, em conversa com a mãe, contou-lhe que a namorada andava triste porque a grande amiga dela estava em vias de se divorciar. Tinham duas crianças pequenas, uma delas ainda de meses e ela não estava disposta a conceder o divórcio, pelo menos a bem…
- E…. - Maria Inês quase desaparecia na cadeira.

- E a mãe do Victor perguntou por perguntar, penso eu, qual era o nome do sujeito com a cabeça a prémio… E ele lembrou-lhe que já o teria visto, pelo menos uma vez, à saída do teatro na companhia da Ana Gonçalves e Sousa. Que se chamava Ricardo e era professor na faculdade. Acho que a mãe nem queria acreditar e obrigou o filho a confirmar duas ou três vezes se era mesmo da Ana Gonçalves e Sousa, filha da sua amiga Marta, de quem ele estava a falar. O filho confirmou, mas perante a insistência da mãe, que queria saber se eles já se namoravam, o pobre do Victor já só queria encerrar o assunto. Pediu à mãe que não dissesse nada à Marta, que aparentemente não sabe de nada disto, lembrando que o Ricardo até pode ter boas intenções e esteja realmente à espera do divórcio para assumir o relacionamento com a Ana. A mãe ainda lhe perguntou se afinal havia relacionamento entre os dois ou não mas o Victor, certamente já arrependido de ter falado no assunto, apenas rematou diplomaticamente dizendo que, pelo menos oficialmente, não havia nada de concreto.
- Pois, pois… Estes homens abrem a boca e depois não sabem como fechá-la, é o que é! - Maria Inês estava espantada. - Mas afinal como soubeste de tudo isto, não és assim tão próxima do Victor para que ele te viesse contar isto tudo… penso eu claro…
- Claro que não, mas encontrei casualmente a Tonicha, de quem, como sabes, também sou amiga, e ela contou-me todo o episódio, desde o triste caso da sua amiga, a mulher do Ricardo até à atribulada conversa em que o namorado meteu os pés pelas mãos com a mãe. Como deves imaginar fiquei logo ali furiosa. Fui para casa e pus-me a fazer contas da vida da Ana. Repara, vê se não é assim? A Ana começou a namorar o Ricardo dois anos depois da morte do pai. O senhor faleceu há seis anos, portanto ela namora com ele há cerca de quatro anos… Como é que a filha mais nova do Ricardo só tem uns meses de idade? Estás a ver a jogada?

- Pode ser adotada! – Replicou Maria Inês já aflita.
- Estás mas é a levar uma bofetada e ver se os teus neurónios trabalham. - Afirmou Margarida exasperada.
- E então agora o que fazemos?
Margarida falava como se estivesse a raciocinar em voz alta, só para si. "O Ricardo pede o divórcio à mulher que não lho concede. Entretanto, ele quer regularizar a situação com a Ana e diz-lhe que é divorciado mas oculta-lhe que é pai, naquela altura de uma só criança. O segundo filho vem na tentativa não de uma reconciliação, mas sim de um apaziguamento, espécie de paz podre, para pedir à mulher, em troca, o divórcio amigável…"
- Mas ele está a enganar a Ana miseravelmente. Alguém tem de por cobro a esta situação. Não achas que temos de ir falar com ela? Somos amigas há tantos anos, temos que lhe contar a verdade! - Maria Inês era impulsiva mas de muito bom coração.
- Será que tenho de te amarrar à cadeira? Situações destas têm de ser elegantemente desmascaradas, a sangue frio e na hora exata. - Margarida endurecera as suas feições e mudou o ritmo da conversa. - Vou pensar muito bem em tudo e o que for feito será em grande, tentando magoar o menos possível a Ana.
- Se estivesse cá o Daniel, seria uma ótima ajuda. – Lembrou Maria Inês.
- Claro, é isso mesmo! - Exclamou Margarida. - Em último caso entramos em contacto com ele. Agora este recado é para ti, o que aqui ouviste fica só entre nós e mais ninguém! Estás a perceber? – A voz de Margarida tomava um tom ameaçador.

- Claro Margarida, podes contar comigo. Mas, para atenuar este choque, posso mandar vir mais um pastel de nata?
Margarida olhou-a de alto a baixo.
- Podes, mas se depois não couberes na porta do autocarro o problema é teu.

(Continua)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Ana


(Continuação de Sempre o Amor)


Ana olhava a foto do pai com ternura e interrogação. Parecia-lhe que aqueles olhos verdes, que herdara, lhe faziam perguntas. Suspirou.
Seria que o pai, que sempre a tinha compreendido, gostaria do Ricardo? Ainda nada dissera à família. Encerrara-se no seu casulo inquieta com medo das apreciações mas também respeitando a memória do pai, sempre venerado em casa apesar de já terem decorrido seis anos sobre a sua morte. Sofrera muito com a partida do seu papi. Afinal, era a sua menina bonita, a preferida para fúria de Alex que, como caçula, entendia que tudo lhe era devido.
Claro que o pai adorava o filho mas este era mais novo cinco anos que a irmã e havia temas que ainda não podia conversar com ele.
Quando Ana devorava livros atrás de livros, o pai dizia-lhe:
- São uma droga, não é? Não conseguimos livrar-nos deles. - E ria feliz porque o seu gosto literário coincidia com o da filha.
Às vezes andavam à disputa sobre uma obra que ambos queriam ler ao mesmo tempo. Outras vezes cada um escolhia o seu livro, depois trocavam e, finalmente, havia o debate num serão de família em que Marta também entrava; fazia igualmente parte do grupo “dos ratos de biblioteca” como afirmava o Alex que assistia a estes serões um pouco enfastiado sem compreender como é que uma pessoa pode gostar tanto de ler… “Que seca!” Por vezes intervinha como árbitro e as suas opiniões não eram assim tão descabidas… Estaria para nascer outro “rato”?




Ana sorriu pousando a foto sobre a secretária. Sentou-se na cadeira de executiva, como dizia o irmão, e chamou a si todas as recordações.
Lembrava-se de Alex, já meio adormecido naquela peleja intelectual, levantar-se e dizer solenemente: 
- Vamos ao concreto meninos!
Todos riam porque já sabiam o que era o concreto de Alex. Meia hora depois de se ter retirado de cena aparecia na sala de avental posto com um grande tabuleiro onde havia de tudo… Era o fim do teatro ou o princípio… Com gestos teatrais virava-se para a mãe e perguntava:
- Madame o que deseja? Está tudo a seu gosto?”
E passava-lhe pequenas tapas barradas com uma mistela que ele reinventava constantemente mas todos concordavam ser muito boa. De seguida surgia um prato de scones aquecidos no micro ondas. “João Ratão” era perito em encontrar restos comestíveis.
- E a senhorinha, que vai tomar? Devo recordar-lhe o cuidado com a sua linha… Mais um pouco de bolo e adeus cinturinha de vespa…
Ana fingia que se zangava com ele.
- Senhor arquiteto, – Virava-se agora para o pai. – sei das suas preferências e aqui está um uísque bem geladinho e um café quentinho acabado de sair… Nunca entenderei estas oposições…
E inclinando-se fazia uma graciosa vénia. O pai achava-lhe imensa graça e rematava sempre:
- Ainda hás-de ir para o teatro.
A mãe puxava a si aquele filho querido e enchia-o de beijos. Como eram felizes… Havia amor verdadeiro e muita ternura.


Seria assim com Ricardo quando constituíssem família? De novo aquela pontada de angústia a apertar-lhe o coração. Ricardo vinha de uma outra relação, de um casamento falhado… Às vezes era irónico e demasiado amargo para o seu gosto, ela que tinha uma alma alegre e transparente.
Como iria a sua família, tradicional, católica praticante, de rigorosos princípios, aceitar um namoro assim? Iria rebentar uma guerra? E o pior é que não tinha a certeza, bem no fundo da sua alma, se estava no caminho certo. Evidentemente que gostava do Ricardo. Era um homem persuasivo, mais velho do que ela quase dez anos, e que fora seu professor na Faculdade.
Chegou de mansinho à sua vida, no momento em que estava toda partida pela dor e com a vida feita num nó. Aceitara a sua companhia porque sentia falta de uma presença masculina que substituísse a do pai, como se isso fosse possível.
- A Ana tem de reagir a esse desgosto. É uma mulher inteligente e sabe que o seu pai depositava grandes esperanças em si. Não gostaria, por certo, de a ver derrotada. - Dizia-lhe Ricardo quase todos os dias. - Quando não puder ir às aulas faculto-lhe apontamentos para a ajudar.
Sem saber como, dois anos depois, estava de namoro com Ricardo.
As colegas comentavam e chegaram a dizer-lhe que ele não era homem para ela.
- Não sei porquê! É um homem educado, com posição, charmoso… Não sei porque não me agradaria.
- Só isso não basta. – Retorquiam as amigas. - É preciso carácter e isto não aconteceria se o teu pai fosse vivo. – Fora a frase que mais lhe ficara no ouvido dita por Daniel.




Mas havia que lhe dar um desconto, Daniel gostava dela desde o secundário. Era habitual lá em casa, filho de amigos dos pais, que se visitavam amiudadas vezes.
O pai chegou a dizer-lhe:
- Ana, ainda te hei-de ver casada com o Daniel e olha que o rapaz tem toda a minha bênção.
- Ó pai, somos só bons amigos e colegas. Já te esqueceste que fomos criados quase juntos? Vejo no Daniel apenas um irmão.
- Os bons e duradouros casamentos assentam muitas vezes nas boas amizades.
De certeza que Daniel intervira um pouco por despeito. Contudo, Ana continuava a ter apreço por ele e sentia-se bem na sua companhia.
O telefone tocou tirando-a de toda abstração e conjeturas…
- Está, Ana? Sou eu o Daniel!
- Sim, eu sei, ainda conheço a tua voz. Estava a pensar em ti…
- Sim? Bem ou mal? - Perguntou ansioso.
- Sabes que nunca penso mal de ti. Tu és para mim muito querido, como um irmão.
Do outro lado houve um silêncio e um suspiro prolongado…
- É pena, mas isso agora também não interessa. Telefono-te para me despedir, parto hoje para Itália.
- E ias-te embora e não me dizias nada? Que é feito do amigo que sabia tudo sobre mim e eu sobre ele? - Perguntou Ana com alguma tristeza.
- Sabes, crescemos, temos de tomar opções na vida, muitas vezes diferentes daquelas que gostaríamos e os caminhos começam a ser paralelos, senão opostos. Mas é evidente que a nossa amizade será sempre a nossa Amizade, com letra maiúscula.
- Sim e ias-te embora sem quase me dizer nada. Fui apanhada de surpresa… Mas porquê essa decisão?
- Compreende, o convite que tive não o recebi há muito tempo. Tive ainda de amadurecer a ideia, estudar os prós e os contras e ecco, lá vou até Itália. Vou trabalhar num conceituado gabinete de arquitetos, o vencimento e regalias são ótimos…
- E as mulheres bonitas… – Atalhou Ana um pouco enciumada.
- Por enquanto esse capítulo está encerrado. Não sou homem para enganar uma mulher gostando eu de outra.
Ana acusou a direta e mudou de conversa.
- Então não vais lá a casa despedir-te da família?
- Já o fiz pelo telefone. Falei com a tua mãe que ficou espantada com esta decisão e com muita pena de não me ver mais por lá a pedir à Maria que fizesse scones para o lanche… O Alex… bem, esse insultou-me e perguntou-me com quem iria agora jogar ténis. – Riu-se, um pouco nervoso. - Sei que todos vocês gostam de mim, isso não duvido.
- Era o que faltava Daniel. Diz-me a que horas parte o teu avião. Vou ao aeroporto dar-te um abraço.
- Não, não. É melhor assim, acredita. Até para os dois. Só te peço uma coisa: pensa muito a sério no que vais fazer em relação ao Ricardo. Se precisares de mim, seja para o que for, é só ligares para o meu telemóvel e eu ponho-me em Portugal no primeiro avião.
Ana sentiu lágrimas nos olhos e no coração. Com voz sumida, respondeu-lhe:
- Eu sei Daniel, eu sei. Faz boa viagem e que Deus te ajude em tudo porque tu mereces. Um beijo.
E desligou apressadamente para não aumentar aquela onda de angústia que começava a inundá-la.



Não, não conseguiria trabalhar mais nesse dia. Deixou pedidos e informações sobre a sua mesa de trabalho e disse à secretária que se ia embora porque não se estava a sentir bem.
O vento na rua refrescou-a um pouco. Iria de novo ter outra perda na vida? Começava a ser demais…
Chegou a casa agitada.
- A minha mãe? – Perguntou à Maria que a olhou espantada com tanta brusquidão.
- A senhora está no jardim. – Respondeu-lhe o mais calmamente que pode.
Correu como quando era criança até ao refúgio da mãe, à procura de paz e de carinho.
- Oh, mãe, o Daniel vai-se embora! – E chorou no seu ombro.
- Eu sei minha querida… e dói? - Perguntou a mãe observando-lhe o rosto cheio de lágrimas.
Ana abanou a cabeça afirmativamente.
Marta, afagando os cabelos da filha, disse-lhe ao ouvido:
- Então pensa porque dói tanto….


(Continua)