segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sexto Aniversário do Blog Zambeziana


Quando em 2009 comecei este caminho, por vias nunca percorridas, pensei que havia muito tempo para fazer tudo o que pretendia. Seis anos! Passaram seis anos e eu quase não dei por eles… Os dias acordam num pulo e os anos já não são como antigamente. Ainda ontem era natal e estamos quase em vésperas da primavera… Parece-me que o tempo me pregou uma partida, silenciosamente, foi-se ausentando. Tenho postado pouco, sem dúvida. Editei um livro e tive de parar necessariamente.


Mas hoje é um dia diferente, é preciso festejar com todos aqueles que me ajudaram a continuar; que vieram aqui comentar, felicitar, falar do “FEITIÇOS”… Apetecia-me escrever para cada um de vós, encher páginas e páginas de coisas bonitas e agradecer-vos de todo o coração. Hoje quero celebrar o nosso encontro, voltar a fazer-vos as mesmas promessas no perfume e na frescura desta manhã e criar laços apertados para fortalecer a Amizade para que, todos juntos, aprendamos a celebrar a vida.

O futuro é uma página ainda em branco que não sei se a escreverei mas, se o fizer, prometo que será colorida. A vida está cheia de encruzilhadas e muitas desilusões. Mas ninguém me dá direções: sou eu que as tenho de encontrar, no pulsar do meu coração, no sangue que me aquece, no inventar da vida que posso respirar a forma mais bela, como um rosa rara num jardim.

Depois de tudo, o melhor da minha vida, encontra-se nos vossos corações. A nossa Amizade teve também as suas canções… e é preciso que elas continuem

Obrigada por tudo, por este Aniversário, pelo vosso carinho que é semente de um novo caminho.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Gabriel

Na varanda do quarto do hotel, Gabriel ouvia os ruídos da noite. Fechou os olhos e os sons materializaram-se na sua memória, transportando-o à infância.
Eram iguais. Incrivelmente iguais. O dialecto falado pelos negros que passavam sem pressa, o vento das folhas das palmeiras, mas tão diferentes dos ruídos de Lisboa ou doutra capital europeia.
Cada cidade, pensou, cada lugar, tem um ruído de fundo específico, como uma música que lhe pertença e seja tocada, interminavelmente, ficando ligada às coisas, às pessoas, às árvores.
Aquele era o som de fundo que ouvira durante toda a sua infância e juventude... Depois, partira para Lisboa, onde passara o resto da sua vida E aí, o ruído era outro.
 
Ainda estava para saber o que lhe passara pela cabeça para se meter naquele avião, em Maputo, e ir ao Norte de Moçambique, em visita ao lugar onde crescera. Não era do tipo saudosista e sabia que essa visita iria, inexoravelmente, prejudicar a suas memórias ciosamente guardadas. Tal como uma fotografia tirada acidentalmente sobre outra, por não se haver rolado o rolo fotográfico. Com a desvantagem da última, mais nítida, anular a primeira, aquela que já fazia parte integrante do passado.
Não devia ter vindo pois aquele lugar já não lhe pertencia As coisas escapavam-se-lhe quando tentava encontrá-las, adquiriam novas formas, novas maneiras de ser e de estar, que nada tinham a ver com o que queria que fossem.
Excepto os sons. Esses eram os mesmos. Excepto a noite quente, excepto os cheiros familiares.
Será que o ouvido e o olfacto são tão importantes como a vista na recolha das memórias? Na varanda do Hotel, sentiu uma imensa angústia invadi-lo. Como a que se sente perante um amor perdido e que não se queria perder. Como a que se experimenta no reencontro de um amigo íntimo de infância, que entretanto envelheceu e nos olha com olhos curiosos e distantes.

Sentiu o suor da noite quente, desceu e foi para a rua. Dirigiu-se, uma vez mais, para a casa onde crescera, tentando que ela lhe falasse e o acolhesse. Ali estava ela, decrépita, abandonado o jardim e as árvores, sem passado, nem futuro, simplesmente morta. Como casa que foi casa mas que já o não é. Aliás, reflectiu, como casa sem lugar aqui, tão desajustada como eu, vagamente europeia e totalmente rejeitada.
Em frente, no terreno vazio, tinha aparecido um bar e restaurante que não existia no passado. Esse sim, perfeitamente adaptado aos novos tempos, coberto com folhas de palmeira e com algumas mesas espalhadas por baixo da grande mangueira. Pelo menos serviam caranguejos e camarão, sempre bons como dantes.
Entrou e procurou alguém. Levou tempo a ver o velho sentado no canto, com a garrafa de cerveja na mão, que o olhava com olhos curiosos. Pediu os caranguejos e a cerveja e voltou a olhar para o velho.

Os olhos curiosos não o largavam e pareceu-lhe vislumbrar uma espécie de sorriso
- Sabes quem eu sou?
- Sei, disse o velho lentamente, és o filho do senhor inspector e vieste ver a tua casa.
- Mas já não é a minha casa- disse Gabriel. Foi aí que o sorriso se abriu
- Para ti é sempre a tua casa, senão, não tinhas vindo.
Esquecida a cidade, Gabriel reencontrava o seu lugar, a sua infância, as suas memórias. Começavam naquela casa, prolongavam-se no terreno vazio e terminavam no sorriso daquele velho.
- Vamos comer caranguejos, disse. Já passou tempo demais.

 - José Alves Pereira in "Poemas & Retratos"



"Nunca se deve regressar aos sítios onde fomos muito felizes"
 - Graça Machado in "Feitiços"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Feliz 2015!!!

 
Às vezes o rio transborda (talvez fosse o BONS SINAIS) alagando margens e não dando espaço para mais nada! Publicar um livro não é fácil… É o antes, o durante e o depois… Mas, quando o sonho se realiza e o leitor afirma que gostou do que leu, todas as canseiras ficam esquecidas.
Volto ao blogue deixando o FEITIÇOS a cumprir a sua missão ao sabor das ondas sem praia.



O começo de um ano NOVO, prontinho a ser estreado, é mais do que voltar ao quotidiano. Exige um momento próprio como se pisássemos um terreno privado, quase sagrado.
Há quem faça listas, extensas, quase impossíveis de realizar. Também já as fiz num outro tempo no qual a maturidade era ainda um fruto desconhecido para mim.
Este ano não comi as doze passas à meia-noite, entendi que fazer doze pedidos prontinhos a serem atendidos era quase fazer do céu um super mercado!
O resto virá por acréscimo, sempre ouvi dizer! Depois da saúde, imprescindível mesmo, é o AMOR. O amor gratuito ocupa espaços vazios em todos os corações. Transporta-se nos ombros da alegria e, por vezes, sabe a pão acabado de cozer.
Gostaria de abraçar o mundo inteiro neste começo de ano acabadinho de ser estreado.
Gostaria que os homens entendessem que caminham na mesma estrada e que a grandeza do seu final depende tão somente daquilo que se deu com amor.



A vida chama por nós… Vamos juntos?
 
Feliz ano de 2015!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Apresentação do meu livro "Feitiços"

Queridos Amigos,

Há cerca de 3 meses interrompi a publicação deste conto romanceado que tenho vindo a partilhar convosco. Esta longa ausência justifica-se pelo pouco tempo que tenho tido disponível por ter estado a ultimar os últimos pormenores para a publicação do meu livro Feitiços que será apresentado no próximo dia 29 de Novembro, sábado, no Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia, uma ocasião que muito gostaria de partilhar convosco.

A menina que sonhava escrever um livro cumpriu o seu sonho… A vós amigos, peço-vos que o recolham nas vossas mãos com muito carinho porque ali, nesse livro, está o que tenho de mais precioso: a minha vida!!

Conto com a vossa presença.
 
Um forte abraço a todos.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

A Ponta da Meada



(Continuação de Ana)


A vida dá tantas voltas, tecendo um manto com uma infinidade de fios entrelaçados, que acaba por não se saber onde está a ponta que deu início a tudo tal é o emaranhado e a confusão de trajetos mal combinados. Alguns, é evidente… E é neste tear da vida de muitas e variadas cores que, às vezes, mesmo sem intenção, se vai buscar a pontinha possivelmente mal acabada que ficou de fora do belo tecido cruzado e recruzado por tantos acontecimentos.

Era o que Margarida, uma das amigas próximas da Ana, pensava quando na paragem esperava pelo autocarro. Aquela chuva miudinha e irritante punha-a nervosa. Em pleno verão apanhara toda a gente desprevenida.
O dia começara quente e cheio de sol e ninguém esperava pela surpresa. Se não tivesse pressa até adoraria caminhar um pouco, sentindo as gotinhas pequeninas escorrendo-lhe pelo rosto. No entanto, a Maria Inês, que completava este terceto de amizade, estava à sua espera na pastelaria do costume e ela detestava chegar atrasada.
- E o autocarro que nunca mais chega! - E parecia um pião andando de um lado para outro, pondo a cabeça à roda de todos quantos ali estavam.
Esticou-se o mais que pôde para ver a rua até ao fundo:
- Lá vem ele! - Porque será que os autocarros chegam sempre atrasados quando temos hora marcada para alguma coisa? Nunca entenderia!
Quando chegou à pastelaria Maria Inês já ia no segundo pastel de nata.
- Ainda bem que chegaste amiga pois iria responsabilizar-te pelos quilitos a mais que em breve danificariam a minha silhueta…
- Maria Inês, já não és uma miúda, tens de saber controlar-te. Porque é que em vez de toda essa doçaria não pediste uma torrada? - Ralhou Margarida.
- Queridinha, achas que o meu estômago se contentaria com uma simples torrada quando estou preste a conhecer algo bombástico?
- Fala baixo! Este é um assunto que não quero que chegue aos ouvidos de ninguém.
E Margarida corria a pastelaria com olhar atento à procura de algum rosto conhecido.
- Vá, desembucha, antes que eu mande vir outro pastel de nata.
- Não sejas criança. O assunto é grave e confidencial.

Maria Inês sentou-se melhor na cadeira, aplicou todos os seus sentidos e preparou-se para ouvir a grande revelação.
- Sabes, – disse Margarida baixando a voz e olhando para todos os lados - o Ricardo é casado e tem dois filhos.
- O quêêeeee?!? - Quase gritou Maria Inês. - Não pode ser!
- É o que ouves. Também eu fiquei sem pinta de sangue quando o soube.
- E a tua fonte de informação é segura, de confiança? - Insistia Maria Inês.
- Como diz a minha avó, a mentira tem perna curta. E depois há fios da meada que ficam um pouco à mostra e daí…
- Mas qual meada? Não percebo nada…
- Esquece. O que eu quero dizer é que o meu amigo outro amigo tem e assim por diante. Aquilo que se julga bem guardado passa de um para outro quase sem querer. Basta haver um fio condutor que tudo coordena e vai dando sentido à trama, montando o puzzle.
- Afinal quem descobriu tudo? - Maria Inês roía as unhas.
- A mulher do António é grande amiga da Tonicha que namora com o Victor. E a Tonicha terá comentado com o namorado…
- E é claro que este pôs tudo na praça. Ainda falam das mulheres… Havia de ser comigo.
- Acalma-te, não foi nada assim. O Victor, em conversa com a mãe, contou-lhe que a namorada andava triste porque a grande amiga dela estava em vias de se divorciar. Tinham duas crianças pequenas, uma delas ainda de meses e ela não estava disposta a conceder o divórcio, pelo menos a bem…
- E…. - Maria Inês quase desaparecia na cadeira.

- E a mãe do Victor perguntou por perguntar, penso eu, qual era o nome do sujeito com a cabeça a prémio… E ele lembrou-lhe que já o teria visto, pelo menos uma vez, à saída do teatro na companhia da Ana Gonçalves e Sousa. Que se chamava Ricardo e era professor na faculdade. Acho que a mãe nem queria acreditar e obrigou o filho a confirmar duas ou três vezes se era mesmo da Ana Gonçalves e Sousa, filha da sua amiga Marta, de quem ele estava a falar. O filho confirmou, mas perante a insistência da mãe, que queria saber se eles já se namoravam, o pobre do Victor já só queria encerrar o assunto. Pediu à mãe que não dissesse nada à Marta, que aparentemente não sabe de nada disto, lembrando que o Ricardo até pode ter boas intenções e esteja realmente à espera do divórcio para assumir o relacionamento com a Ana. A mãe ainda lhe perguntou se afinal havia relacionamento entre os dois ou não mas o Victor, certamente já arrependido de ter falado no assunto, apenas rematou diplomaticamente dizendo que, pelo menos oficialmente, não havia nada de concreto.
- Pois, pois… Estes homens abrem a boca e depois não sabem como fechá-la, é o que é! - Maria Inês estava espantada. - Mas afinal como soubeste de tudo isto, não és assim tão próxima do Victor para que ele te viesse contar isto tudo… penso eu claro…
- Claro que não, mas encontrei casualmente a Tonicha, de quem, como sabes, também sou amiga, e ela contou-me todo o episódio, desde o triste caso da sua amiga, a mulher do Ricardo até à atribulada conversa em que o namorado meteu os pés pelas mãos com a mãe. Como deves imaginar fiquei logo ali furiosa. Fui para casa e pus-me a fazer contas da vida da Ana. Repara, vê se não é assim? A Ana começou a namorar o Ricardo dois anos depois da morte do pai. O senhor faleceu há seis anos, portanto ela namora com ele há cerca de quatro anos… Como é que a filha mais nova do Ricardo só tem uns meses de idade? Estás a ver a jogada?

- Pode ser adotada! – Replicou Maria Inês já aflita.
- Estás mas é a levar uma bofetada e ver se os teus neurónios trabalham. - Afirmou Margarida exasperada.
- E então agora o que fazemos?
Margarida falava como se estivesse a raciocinar em voz alta, só para si. "O Ricardo pede o divórcio à mulher que não lho concede. Entretanto, ele quer regularizar a situação com a Ana e diz-lhe que é divorciado mas oculta-lhe que é pai, naquela altura de uma só criança. O segundo filho vem na tentativa não de uma reconciliação, mas sim de um apaziguamento, espécie de paz podre, para pedir à mulher, em troca, o divórcio amigável…"
- Mas ele está a enganar a Ana miseravelmente. Alguém tem de por cobro a esta situação. Não achas que temos de ir falar com ela? Somos amigas há tantos anos, temos que lhe contar a verdade! - Maria Inês era impulsiva mas de muito bom coração.
- Será que tenho de te amarrar à cadeira? Situações destas têm de ser elegantemente desmascaradas, a sangue frio e na hora exata. - Margarida endurecera as suas feições e mudou o ritmo da conversa. - Vou pensar muito bem em tudo e o que for feito será em grande, tentando magoar o menos possível a Ana.
- Se estivesse cá o Daniel, seria uma ótima ajuda. – Lembrou Maria Inês.
- Claro, é isso mesmo! - Exclamou Margarida. - Em último caso entramos em contacto com ele. Agora este recado é para ti, o que aqui ouviste fica só entre nós e mais ninguém! Estás a perceber? – A voz de Margarida tomava um tom ameaçador.

- Claro Margarida, podes contar comigo. Mas, para atenuar este choque, posso mandar vir mais um pastel de nata?
Margarida olhou-a de alto a baixo.
- Podes, mas se depois não couberes na porta do autocarro o problema é teu.

(Continua)