terça-feira, 17 de março de 2015

O Silêncio

Quem disse que o silêncio
Não fala?
A semente, na terra,
Germina na calada da noite…
É tolice pensar que o silêncio
Não gera a vida
E tem mistério
Que não sabe revelar.
Ele é essência do fruto maduro
Que gota a gota se formou,
No escuro.
 














É tempo sem idade
Que nos ensina a calar.
É seiva imensa que lembra
Eternidade.
É pátria dos fortes,
Dos que não têm nada.
Basta-lhes o silêncio como fonte.
Alimentados pela solidão,
Gritam liberdade na noite vazia.
São pesados os sonhos
Dos que apenas sabem falar.
Por isso não têm
Tempo para pensar.
Falta-lhes o sorriso
Cultivado no silêncio,
Guardado como a semente,
A germinar.
 
Virá um dia em que o silêncio
Será flor,
Será palavra colhida com amor
Na terra arada pelo sofrimento
De tanta gente.
Infelizes são os que não entendem
Que há um momento
Em que o coração sente que os mais felizes
São os que falam
Com o pensamento.
Dizem tudo sem dizerem nada
Porque o silêncio é grande,
Quando fala.

- Graça Pereira Machado



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sexto Aniversário do Blog Zambeziana


Quando em 2009 comecei este caminho, por vias nunca percorridas, pensei que havia muito tempo para fazer tudo o que pretendia. Seis anos! Passaram seis anos e eu quase não dei por eles… Os dias acordam num pulo e os anos já não são como antigamente. Ainda ontem era natal e estamos quase em vésperas da primavera… Parece-me que o tempo me pregou uma partida, silenciosamente, foi-se ausentando. Tenho postado pouco, sem dúvida. Editei um livro e tive de parar necessariamente.


Mas hoje é um dia diferente, é preciso festejar com todos aqueles que me ajudaram a continuar; que vieram aqui comentar, felicitar, falar do “FEITIÇOS”… Apetecia-me escrever para cada um de vós, encher páginas e páginas de coisas bonitas e agradecer-vos de todo o coração. Hoje quero celebrar o nosso encontro, voltar a fazer-vos as mesmas promessas no perfume e na frescura desta manhã e criar laços apertados para fortalecer a Amizade para que, todos juntos, aprendamos a celebrar a vida.

O futuro é uma página ainda em branco que não sei se a escreverei mas, se o fizer, prometo que será colorida. A vida está cheia de encruzilhadas e muitas desilusões. Mas ninguém me dá direções: sou eu que as tenho de encontrar, no pulsar do meu coração, no sangue que me aquece, no inventar da vida que posso respirar a forma mais bela, como um rosa rara num jardim.

Depois de tudo, o melhor da minha vida, encontra-se nos vossos corações. A nossa Amizade teve também as suas canções… e é preciso que elas continuem

Obrigada por tudo, por este Aniversário, pelo vosso carinho que é semente de um novo caminho.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Gabriel

Na varanda do quarto do hotel, Gabriel ouvia os ruídos da noite. Fechou os olhos e os sons materializaram-se na sua memória, transportando-o à infância.
Eram iguais. Incrivelmente iguais. O dialecto falado pelos negros que passavam sem pressa, o vento das folhas das palmeiras, mas tão diferentes dos ruídos de Lisboa ou doutra capital europeia.
Cada cidade, pensou, cada lugar, tem um ruído de fundo específico, como uma música que lhe pertença e seja tocada, interminavelmente, ficando ligada às coisas, às pessoas, às árvores.
Aquele era o som de fundo que ouvira durante toda a sua infância e juventude... Depois, partira para Lisboa, onde passara o resto da sua vida E aí, o ruído era outro.
 
Ainda estava para saber o que lhe passara pela cabeça para se meter naquele avião, em Maputo, e ir ao Norte de Moçambique, em visita ao lugar onde crescera. Não era do tipo saudosista e sabia que essa visita iria, inexoravelmente, prejudicar a suas memórias ciosamente guardadas. Tal como uma fotografia tirada acidentalmente sobre outra, por não se haver rolado o rolo fotográfico. Com a desvantagem da última, mais nítida, anular a primeira, aquela que já fazia parte integrante do passado.
Não devia ter vindo pois aquele lugar já não lhe pertencia As coisas escapavam-se-lhe quando tentava encontrá-las, adquiriam novas formas, novas maneiras de ser e de estar, que nada tinham a ver com o que queria que fossem.
Excepto os sons. Esses eram os mesmos. Excepto a noite quente, excepto os cheiros familiares.
Será que o ouvido e o olfacto são tão importantes como a vista na recolha das memórias? Na varanda do Hotel, sentiu uma imensa angústia invadi-lo. Como a que se sente perante um amor perdido e que não se queria perder. Como a que se experimenta no reencontro de um amigo íntimo de infância, que entretanto envelheceu e nos olha com olhos curiosos e distantes.

Sentiu o suor da noite quente, desceu e foi para a rua. Dirigiu-se, uma vez mais, para a casa onde crescera, tentando que ela lhe falasse e o acolhesse. Ali estava ela, decrépita, abandonado o jardim e as árvores, sem passado, nem futuro, simplesmente morta. Como casa que foi casa mas que já o não é. Aliás, reflectiu, como casa sem lugar aqui, tão desajustada como eu, vagamente europeia e totalmente rejeitada.
Em frente, no terreno vazio, tinha aparecido um bar e restaurante que não existia no passado. Esse sim, perfeitamente adaptado aos novos tempos, coberto com folhas de palmeira e com algumas mesas espalhadas por baixo da grande mangueira. Pelo menos serviam caranguejos e camarão, sempre bons como dantes.
Entrou e procurou alguém. Levou tempo a ver o velho sentado no canto, com a garrafa de cerveja na mão, que o olhava com olhos curiosos. Pediu os caranguejos e a cerveja e voltou a olhar para o velho.

Os olhos curiosos não o largavam e pareceu-lhe vislumbrar uma espécie de sorriso
- Sabes quem eu sou?
- Sei, disse o velho lentamente, és o filho do senhor inspector e vieste ver a tua casa.
- Mas já não é a minha casa- disse Gabriel. Foi aí que o sorriso se abriu
- Para ti é sempre a tua casa, senão, não tinhas vindo.
Esquecida a cidade, Gabriel reencontrava o seu lugar, a sua infância, as suas memórias. Começavam naquela casa, prolongavam-se no terreno vazio e terminavam no sorriso daquele velho.
- Vamos comer caranguejos, disse. Já passou tempo demais.

 - José Alves Pereira in "Poemas & Retratos"



"Nunca se deve regressar aos sítios onde fomos muito felizes"
 - Graça Machado in "Feitiços"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Feliz 2015!!!

 
Às vezes o rio transborda (talvez fosse o BONS SINAIS) alagando margens e não dando espaço para mais nada! Publicar um livro não é fácil… É o antes, o durante e o depois… Mas, quando o sonho se realiza e o leitor afirma que gostou do que leu, todas as canseiras ficam esquecidas.
Volto ao blogue deixando o FEITIÇOS a cumprir a sua missão ao sabor das ondas sem praia.



O começo de um ano NOVO, prontinho a ser estreado, é mais do que voltar ao quotidiano. Exige um momento próprio como se pisássemos um terreno privado, quase sagrado.
Há quem faça listas, extensas, quase impossíveis de realizar. Também já as fiz num outro tempo no qual a maturidade era ainda um fruto desconhecido para mim.
Este ano não comi as doze passas à meia-noite, entendi que fazer doze pedidos prontinhos a serem atendidos era quase fazer do céu um super mercado!
O resto virá por acréscimo, sempre ouvi dizer! Depois da saúde, imprescindível mesmo, é o AMOR. O amor gratuito ocupa espaços vazios em todos os corações. Transporta-se nos ombros da alegria e, por vezes, sabe a pão acabado de cozer.
Gostaria de abraçar o mundo inteiro neste começo de ano acabadinho de ser estreado.
Gostaria que os homens entendessem que caminham na mesma estrada e que a grandeza do seu final depende tão somente daquilo que se deu com amor.



A vida chama por nós… Vamos juntos?
 
Feliz ano de 2015!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Apresentação do meu livro "Feitiços"

Queridos Amigos,

Há cerca de 3 meses interrompi a publicação deste conto romanceado que tenho vindo a partilhar convosco. Esta longa ausência justifica-se pelo pouco tempo que tenho tido disponível por ter estado a ultimar os últimos pormenores para a publicação do meu livro Feitiços que será apresentado no próximo dia 29 de Novembro, sábado, no Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia, uma ocasião que muito gostaria de partilhar convosco.

A menina que sonhava escrever um livro cumpriu o seu sonho… A vós amigos, peço-vos que o recolham nas vossas mãos com muito carinho porque ali, nesse livro, está o que tenho de mais precioso: a minha vida!!

Conto com a vossa presença.
 
Um forte abraço a todos.