sábado, 26 de dezembro de 2009

Acção de Graças


Foi outra vez Natal e o ano chega ao fim… Há quem faça balanço dos seus negócios e actividades profissionais e acho bem. Gostaria, no entanto, que todos fizessem outro género de contas. E nestas contas, talvez um pouco em desalinho mas com a doç
ura das recordações, lembro-me do Monsenhor Mira que, em Quelimane, sempre que eu ia à Confissão, a primeira pergunta que o bom sacerdote me fazia era: ”Gracita, tens sido feliz? Deus criou-te para a felicidade”. Percorro mentalmente o meu ano: fui realmente feliz? Que fiz dos meus sorrisos, das minhas mãos nem sempre abertas, da amizade oferecida e outra esquecida, dos meus sonhos semeados em terra nua? Nem sempre o céu foi azul! Por vezes aconteceram trovoadas, choques da energia desordenada, desilusões que não semeei mas com a chuva farta despertaram como o joio no meio do trigo… Aconteceram também canções como colheita talvez inesperada mas amassada em suor e generosidade.
Floresceram amizades no meu canteiro que foram sol e música em comunhão. Partilhei o pão da minha mesa num abraço sentido e saboreado. Num tempo em que o relógio parou, fizemos das palavras um jogo de paciência e compreensão. Os gestos divididos ficaram maiores e luminosos. Cada palavra dita devagar teve o sabor da eternidade.
É certo que nunca estamos totalmente saciados. Queremos mais… sempre mais e não entendemos que só o infinito nos pode preencher. Mas fui realmente feliz? E o que é a felicidade? Aquele momento inesperado, fugidio e que logo se dissipou? Aquele acontecimento recebido como prenda e que se apagou como as luzes brilhantes do néon?
A felicidade é a pátria da verdade em céu azul. Corajosamente fiz caminho durante este ano, onde o impossível foi possível, desafiando medos e dúvidas e na hora da derrota, contornei-a com um grande “R” de… recomeçar! Olhei a imensa floresta da vida onde o rosto de cada pessoa, principalmente das crianças, é uma promessa, e esperei pela dança inusitada das sílabas que, envolta num arco-íris, fez uma aliança de memórias com o outro lado do mundo.
Como esquecer?

Mas fui realmente feliz? Julgo que sim! Em cada ano desejo sempre a felicidade mas não a exijo porque ela não responde a ordens, nem a reivindicações, nem aos caprichos.
É dada a cada um sem distinção de pessoas ou de condições, sem preferência por tempos, lugares ou circunstâncias. Como o vento, não se sabe nem de onde vem nem para onde vai.
Surge de repente mas logo se escapa.

Para a não perder quando vier. É preciso prepararmo-nos…
O resto… o resto nos será dado por acréscimo!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Postal de Natal


Entrai Amigos, entrai! Na minha casa é NATAL. Desde as decorações até ao meu coração preparado para O receber.

Podeis parar diante do Presépio do Condomínio (sempre feito por mim) e que abençoa as quatro famílias deste prédio.



Ou então, no Presépio do meu hall, com figuras muito antigas misturadas com outras adquiridas em muitos lugares, oferecendo a universalidade deste quadro.



Na sala, a decoração é mais profana: a grande Árvore de Natal onde o Pai Natal tem posição de destaque e saúda a todos com o seu OH! OH!OH!



Por cima da lareira (quando esta oferece o seu fogo mágico…) há uma coordenação de encantamento, de histórias infantis que li já há muito tempo e com as recordações do outro lado do mundo e do tempo que se misturam com as de hoje e as do ontem mais recente.
E enquanto o fogo crepita, eu vou desfolhando este livro…
Entrai e ficai à vontade, vós, velhos e antigos amigos, os mais recentes e virtuais (nem por isso, menos verdadeiros) os seguidores, os que por aqui passam e os amigos espalhados pelo mundo inteiro… Colhei os meus votos de Natal!

QUE O VOSSO NATAL SEJA O DA ALEGRIA, FUNDADA NOS MOTIVOS EXTERIORES E HUMANOS, É CERTO MAS COM RAÍZES PROFUNDAS NO NOSSO CORAÇÃO.
COM ESTA ALEGRIA, A ESTRELA NATALÍCIA BRILHARÁ PARA NÓS!
MAS O NOSSO NATAL TEM SINAIS MAIS FORTES AINDA: FALA-NOS DE DIVIDIR, DE REPARTIR O QUE TEMOS E, SOBRETUDO, O QUE SOMOS!!!!

BOAS E SANTAS FESTAS DE NATAL A TODOS!


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Menino Jesus, Dá-me uma Estrela


Eu não te peço presentes,
Nem festa, nem consoada,
Nem sequer Missa do Galo,
Senhor,
Não te peço nada,
A não ser…
A não ser uma estrela
Uma estrela dourada
Para deitar no sapato
Dos que fazem do Natal
Um dia igual
A outro igual!


Dos que não têm Presépio
Nem fora, nem dentro da alma…
Oh, meu Jesus, dá-me a estrela
A mais linda, a mais brilhante
A mais quente, a mais distante
Para que saibam que há estrelas,
Calor, e Luz, e distância…
Para que saibam que há estrelas
Ao redor do mundo todo.
Há estrelas por trás do sol
Há estrelas no próprio lodo…
Senhor, não te peço prendas
Nem bonitos, nem confeitos,
Senhor, não te peço nada
Nada… a não ser…
Que me deites
Que me deites uma estrela.
E quando de madrugada
Forem calçar os sapatos
Encharcados
Pesados
Enlameados


E quando de madrugada
Virem uma luz
A brilhar dentro de casa,
Hão-de ficar espantados
Sem saber que foste tu
Oh Menino do Presépio
Que foste Tu quem lha deu…
E talvez, talvez, Senhor,
À procura de uma estrela
E de mais,
Iguais
Àquela
Pela primeira vez,
Numa noite de Natal Igual a outra igual,
Os que não têm Natal
Olhem o Céu!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Conto de Natal


A folhinha de 23 de Dezembro acabava de ser arrancada do calendário do escritório do Pai Natal. Este, com a sua longa barba branca, faces rosadas e uns olhos azuis onde moravam a doçura mas também a ansiedade, vociferava com voz forte:
- É véspera de Natal e há tanto ainda por fazer! - Saiu do seu escritório, apressado, batendo com as suas botarras negras pelos ladrilhos dos imensos corredores da sua fábrica de brinquedos, onde, durante um ano, os duendes fabricavam os brinquedos e os jogos pretendidos por todos os meninos do Mundo. Todos, não! Só os bem comportados. Os outros, os mal-educados, os que tinham reprovado e não gostavam de estudar, os arreliadores, etc., recebiam uma cartinha do Pai Natal, a convidá-los a serem melhores e a entrarem no imenso rol dos meninos que, na noite de 24 para 25 de Dezembro iriam receber a sua visita e, claro está, as lembranças há muito pedidas em milhares e milhares de cartas, que todos os anos, no mês de Dezembro, chegam ao Palácio do Pai Natal.
Antes de continuar a sua ronda parou na secção da correspondência. Em cima de uma longa mesa, as cartinhas amontoavam--se como castelos; A um canto, dois enormes sacos acabados de chegar, estavam ainda intactos. O Duende Sabichão, era quem abria a correspondência e a separava conforme fosse menina ou menino o autor da missiva. Entretanto, o seu ajudante, o gnomo Verde, dis
tribuía as cartas pelos sectores correspondentes. E como ele corria... Pobre gnomo! E de tanto correr, sufocar e protestar, ficava verde, verde como um pepino, e daí, o nome que todos lhe davam - o Gnomo... Verde! Mas não se ralava com isso, o que ele queria, acima de tudo, era que cada carta chegasse às mãos dos artistas, para que, na noite de Natal, não houvesse nenhum menino triste, de mãos vazias, sem o presente desejado. Até era simpático, este gnomo.
O Pai Natal perguntou ao Sabichão:

- Quanto tempo precisas para leres as cartas destes dois últimos sacos? Não te esqueças que já é manhã do dia 24 de Dezembro e logo, pelas onze horas da noite, iniciarei a minha viagem pelos céus da Terra.
- Fique descansado Pai Natal, dentro de uma hora, estará tudo lido e encaminhado para as respectivas secções. As meninas, a maioria, pedem bonecas e vestidos para as mesmas e um ou outro jogo. Os rapazes é que são mais sofisticados! Já não pedem o pião, o arco e flechas ou os soldadinhos de chumbo, agora querem aparelhagens sonoras, CD's, cassetes vídeo, e até, imagine, uma televisão pequenina para os seus quartos...
- Ah! Ah! Ah! - riu o Pai Natal com a sua voz forte que se ouviu pela casa toda. - São uns marotos, são uns marotos! E livros, livros de histórias maravilhosas, já ninguém pede?
- Não... - respondeu o Sabichão com voz triste - As crianças já não lêm e assim, também já não sonham! A nossa tipografia quase que fechou. O Erudito está desiludido; este ano, não chegam a três dezenas os meninos que pediram nas suas cartinhas um ou outro livro.
- Pois... - disse o Pai Natal pensativo - mas mesmo sem o terem pedido, junto às suas prendas encontrarão um livro de histórias que, apesar de toda esta nova tecnologia, é e será sempre, o melhor amigo que uma criança pode ter! Não podemos permitir que as crianças deixem de ler... Como pode o Mundo evoluir sem aquela pontinha de fascínio, de imaginação, de fantasia, que nos vem dos livros que lemos na nossa infância? Nã, nã, - repetia abanando a cabeça - em cada saco vai um livro que ajude a despertar a alma de cada um, para a imaginação e para o sonho. Bom, já é muito tarde e há que visitar ainda outras secções.
O Pai Natal abriu de repente a porta da sala das bonecas. Como eram vaidosas! Algumas frisavam os cabelos debaixo de um secador e sentavam-se cuidadosamente para não amarrotarem os vestidos. O Artista, o Duende encarregado daquele departamento, estava entusiasmado, viam-se os olhos a brilhar... Olhava para as suas bonecas com paixão, achando-as as mais belas do Mundo. E o vestuário? Era do mais sumptuoso que havia. Malinha a condizer com os sapatos, cintos de pedraria, jóias no pescoço e nas orelhas e toda a espécie de outros adereços. Até uma dama antiga havia. De repente, o Pai Natal descortinou ao fundo uma boneca diferente, muito calada e de olhar triste. Era de trapos, dois grandes botões luminosos a servirem-lhe de olhos, com os quais observava, atenta, o Mundo que a rodeava; Duas louras tranças de lã, a lembrar o trigo maduro, e um corpinho macio, mesmo para ser apertado de encontro ao coração, faziam dela uma boneca especial.
- Por quê só uma boneca deste género? - quis saber o Pai Natal curioso.

- Foi uma menina muito rica que a pediu. No seu palacete tem as bonecas mais belas e maravilhosas do Mundo, faltava-lhe uma boneca de trapos que pudesse ser a sua companheira de brincadeiras e conversas, sem ter medo de a partir ou de estragar a toillete. Por isso, lembrei-me de lhe enviar a Desejada - disse o Artista.
O Pai Natal olhou mais uma vez a boneca de trapos que parecia ler--lhe o coração.

-Sim, tens razão, a menina rica vai ficar feliz com a Desejada. - E, atirando-lhe um beijo com as pontas dos dedos, partiu para outra sala onde o ruído imperava.
O Trovão e o Faísca, montavam rádios, aparelhagens sonoras, televisões e até verificavam as gravações dos CDs. E as cassetes vídeo? Eram tantas, mas tantas que enchiam uma sala... Era a Guerra das Estrelas, os ET's, os Star Trek's, etc., etc.

- O Mundo está a mudar - dizia o Pai Natal muito pensativo.
De repente, ouviu-se um grande estrondo na sala do lado. O que se passaria? Numa só passada o Pai Natal pôs-se lá, e o que viu deixou-o hilariante e feliz.
- Afinal ainda há meninos que pedem cavalinhos de madeira, o pião que canta enquanto roda, a corda de saltar, os lápis de cor e o velho jogo do Dominó. Ah! Ah! Ah! - riu ele satisfeito - Estou a encontrar os meus meninos. Vá depressa, depressa, que o tempo urge. Antes de ir almoçar, o Pai Natal passou pela Casa das Renas. Mais de vinte gnomos escovavam o pêlo sedoso das doze renas que haviam de transportar o Pai Natal até à casa de todos os meninos da Terra. Outros, escovavam as grandes dentuças das renas para que brilhassem na noite como pérolas descendo pelo céu. E o trenó do Pai Natal? Era um brinquinho! Havia sido pintado e decorado. À frente, dois grandes lampiões amarelos, acabadinhos de serem polidos, faziam conjunto com lindas grinaldas de azevinho e laços de seda vermelha. Atrás da cadeira do Pai Natal ficava um grande, grande espaço que seria ocupado com os sacos coloridos, cheios de prendas, para encher os sapatinhos dos meninos bem comportados da Terra. Uma grande manta aos quadrados, verdes e vermelhos, dobrada sobre o assento, taparia mais tarde os grandes sacos, não fosse algum romper-se e perder o seu recheio no imenso espaço sem fim.
Depois de toda esta ronda, o Pai Natal estava cansado. A ansiedade não o deixou comer fosse o que fosse. Mas, Natali
na, sua mulher, preocupada como sempre e conhecedora dos gostos do seu marido, trouxe-lhe um grande pudim de frutas cristalizadas que ele tanto adorava e sempre comia antes de cruzar o céu de uma ponta a outra.
- Chega, chega! - ria-se ele, já bem disposto - Não posso comer mais, senão daqui a pouco não consigo abotoar os botões do meu casaco.

- E as botas? - perguntou Natalina também feliz - Acabei de as limpar agora mesmo, estão engraxadas e reluzentes, assim como a fivela do teu cinturão preto.
- Ah! Natal é só uma vez no ano, mas quero tudo a brilhar, a reluzir, para que o Mundo saiba, ao olhar para o céu na noite de 24 de Dezembro e ao ver um risco brilhante, que sou Eu que já vou a caminho de suas casas. Espera-os o Amor e a Alegria.
E o velho Pai Natal acomodava-se, trajado a rigor, no seu trenó engalanado, puxado pelas doze renas que mais pareciam doze estrelas iluminadas,
comandando as suas fiéis companheiras de Natal:
- Vamos, vamos minhas amigas. - E voltando-se para trás, olhando Natalina e todos os Duendes de sua casa, gritava com voz forte:

- Feliz Natal a todos, Feliz Natal!


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A Visitante Inesperada


Era em Belém e ao romper do dia. A estrela deixara de brilhar, o último
peregrino abandonara o estábulo e a Virgem tinha remexido a palha. Finalmente o Menino ia dormir. A porta abriu-se levemente, empurrada, dir-se-ia, mais por sopro do que por mão humana, e uma mulher apareceu, coberta de andrajos, com o rosto da cor da terra, tão velha e enrugada que a sua boca parecia uma ruga também.
Maria teve medo quando a viu, como se tivesse visto uma fada malfazeja. Felizmente Jesus dormia! O burro e o boi mastigavam pachorrentamente a sua palha e viam a intrusa avançar sem mostrarem espanto, como se a conhecessem há muito. A Virgem, porém, não deixava de a fitar. Cada passo que ela dava parecia-lhe longo como um século.
A velha prosseguia e eis que chega à borda da manjedoura. Debruçou-se então sobre a palha, procurou com a mão nos seus andrajos qualquer coisa que parecia procurar há séculos. Maria olhava sempre com a mesma inquietação. Os animais olhavam-na também, mas sempre sem surpresa, como se soubessem de antemão o que iria acontecer.
Enfim, depois de muito tempo, a velha tirou dos seus andrajos um objecto escondido na mão e entregou-o ao Menino.
Depois dos tesouros dos Magos e das ofertas dos pastores, que presente seria agora? E onde estava, Maria não o podia ver. Via apenas as costas curvadas pela idade, que se curvavam mais ainda, inclinando-se para o berço. Mas o burro e o boi viam-no e continuavam tranquilos. Isto durou ainda muito tempo. Depois a velha endireitou-se como que aliviada do peso que a puxava para a terra. As suas espáduas já não vergavam, a sua cabeça chegava quase ao tecto e o seu rosto tinha recuperado a frescura da mocidade. E quando se afastou do berço para se dirigir à porta e desaparecer, é que Maria pôde finalmente ver o misterioso presente.
Eva – pois era ela – tinha acabado de entregar ao Menino uma pequena maçã, a do primeiro pecado (e de tantos outros que o seguiram!). E a pequena maçã vermelha brilhava nas mãos do recém-nascido, como o Globo do Mundo Novo que acabava de nascer com ELE.