Desde que São Francisco de Assis teve a encantadora ideia de armar um presépio que também eu, com imensa ternura, todos os anos pelo Natal, faço o mesmo… religiosamente!
Francisco, como ia dizendo, introduziu então na arte, o burrico. Coitado deste ser tão simpático e amoroso que, desde que foi anunciado (pelo menos em Portugal…) que estava em vias de extinção… toda a gente começou a recolhê-los, em quintas, em espaços apropriados. Ainda bem, gosto deles!
Francisco, como ia dizendo, introduziu então na arte, o burrico. Coitado deste ser tão simpático e amoroso que, desde que foi anunciado (pelo menos em Portugal…) que estava em vias de extinção… toda a gente começou a recolhê-los, em quintas, em espaços apropriados. Ainda bem, gosto deles!
Mas o franciscanismo adentrou o burrico também pela poesia e toda a criação – obra de Deus – extasiou Francisco colocando-a igualmente neste belíssimo quadro do nascimento de Jesus A partir do século XVII os animais falavam, em fábulas, contos e muitas histórias. A condessa de Ségur com as memórias do famoso “Cadichon” foi pioneira nestas “fabulações”. E o cinema pegou, com muito êxito, nesta moda: cavalos, burros e cães que falavam.
Quando pela primeira vez abri o livro “Platero e eu” do escritor espanhol Juan Ramón Jimenez, esqueci-me de tudo que já tinha visto e lido sobre qualquer burrico famoso.
Quando pela primeira vez abri o livro “Platero e eu” do escritor espanhol Juan Ramón Jimenez, esqueci-me de tudo que já tinha visto e lido sobre qualquer burrico famoso.
O estilo é a obra! Muito leve, transparente e límpida.
Juan era andaluz, quase algarvio, pelo menos nosso vizinho. Há, de facto, um feitiço no sol e na lua do sul. Andaluzes e algarvios têm a sua maneira poética de dizer e de sentir. Juan Ramón escreveu e publicou cerca de trinta obras e deixou o original de cerca de 150 quando faleceu em 1959. Mas foi com “Platero e eu” que ele atingiu a fama mundial, tendo ganho o Prémio Nobel da Literatura em 1956.
Quando li este livro em 1962, era eu uma jovenzinha, e desde logo me seduziu. Ilustrado por outro artista espanhol Alvarez Ortega tem uma leveza e sedução que nos arrebata. Muitas edições surgiram depois, como é natural.
O livro é composto por 138 capítulos, independentes uns dos outros. O público podem ser crianças, jovens e pela sua dureza e amargura, para aqueles que, só com cabelos branco já, os podem ler e entender. A obra passa-se na bela Andaluzia, repleta da cor local impossível de esquecer. Só no final da leitura se entende toda a história porque a narrativa está dispersa por todos os capítulos.
O autor foi um jovem rico que cedo ficou órfão de mãe, a seguir de pai, tendo a família passado por revezes muito graves. Venderam tudo, incluindo o belo cavalo o “Almirante” mas ficou-lhe ainda um jerico – o Platero, com sugestões de prata devido à sua pelagem, que se tornou seu confidente e amigo incondicional. Com o rodar dos anos – os burros vivem muito já a Condessa de Ségur o afirmava nas suas memórias de Cadichon – o autor tem de novo uma família e vive feliz.
O autor foi um jovem rico que cedo ficou órfão de mãe, a seguir de pai, tendo a família passado por revezes muito graves. Venderam tudo, incluindo o belo cavalo o “Almirante” mas ficou-lhe ainda um jerico – o Platero, com sugestões de prata devido à sua pelagem, que se tornou seu confidente e amigo incondicional. Com o rodar dos anos – os burros vivem muito já a Condessa de Ségur o afirmava nas suas memórias de Cadichon – o autor tem de novo uma família e vive feliz.
Mas, entretanto, Platero morre. O poeta sofre e na sua imensa dor e fantasia, imagina Platero num paraíso, entre flores. Um amigo oferece-lhe nessa ocasião um pequeno burrinho de barro que ele coloca sobre a sua mesa de trabalho e olhando-o revive e recria a personagem e as aventuras que ele viveu e sonhou com aquele burro famoso da sua juventude.
Respiguei quatro capítulos para que a vossa curiosidade desperte e nestas férias, possa ser este um dos livros a fazer-vos companhia.
AMIZADE
“Entendemo-nos bem. Eu deixo-o seguir como lhe apetece, e ele leva-me sempre aonde eu quero. Platero sabe que ao chegar ao Pinheiro da Coroa, me agrada chegar-me ao seu tronco e acariciá-lo e olhar o céu através da sua copa enorme e clara; sabe que me deleita a veredazinha que vai entre ciprestes até à Fonte Velha; que é para mim uma festa ver o rio desde a colina dos pinheiros, evocadora com o seu pequeno bosque, no alto, qual paisagem clássica. Como adormeço, fiado nele, o meu despertar abre-se sempre para um dos tais amáveis espectáculos. Eu trato o Platero como se fosse um filho. Se o caminho se torna pedregoso e um pouco pesado, desmonto para aliviá-lo. Beijo-o, jogo com ele, faço-o arreliar… Ele bem compreende que o amo e não me guarda rancor… É tão igual a mim, tão diferente dos demais, que chego a acreditar que sonha os meus próprios sonhos…”
A FLOR DO CAMINHO
“Que pura, Platero! E que bela esta flor do caminho! Passam a seu lado todos os tropéis – os touros, as cabras, os potros, os homens – e ela tão tenra e débil, fica erecta, cor de malva e fina, sozinha no seu valado, sem se contaminar com impureza alguma.
Cada dia, quando, ao começo da encosta, tomamos o atalho, tu bem a tens visto no seu posto verde. Já tem ao lado um passarinho que se levantou – porquê? – mal nos aproximamos; ou então ela está cheia, como ligeira taça, de água viva de alguma nuvem de verão; ou consente ainda o roubo de uma abelha ou o volúvel adorno duma mariposa.
Esta flor poucos dias viverá, Platero, embora a sua recordação possa ser eterna. O seu viver será como um dia da tua primavera, como uma primavera da minha vida… O que não daria eu no Outono, Platero, em troca desta flor divina, para que ela fosse diariamente o exemplo simples e sem fim da nossa?”
O POÇO
“O poço! Platero, que palavra tão profunda, tão verdenegra, tão fresca, tão sonora! Parece que é a palavra que perfura, movendo, a terra obscura, até chegar à água fria.
Olha: a figueira adorna e desbarata-lhe o parapeito.
Dentro, ao alcance da mão, abriu, entre os tijolos, prematura, uma flor azul de cheiro penetrante. Mais abaixo uma andorinha fez o ninho. Logo, atrás de um pórtico de sombra inerte, há um palácio de esmeralda, e um lago que, ao atirar-se-lhe uma pedra à sua quietação, se enfada e grunhe. E, por fim, o céu. (A noite entra e a lua inflama-se além, no fundo, adornada de volúveis estrelas. Silêncio! Pelos caminhos a vida foi-se para longe. Pelo poço a alma escapa-se para o fundo. Vê-se por ele, como que o outro lado do crepúsculo. E parece-lhe vai a sair pela boca o gigante da noite, dono de todos os segredos do mundo. O labirinto quieto e mágico, porque sombrio e fragrante, magnético salão encantado!)
Platero, se algum dia me deitar a este poço, não será para me matar creio, mas sim para agarrar mais depressa as estrelas.
Platero zurra, sedento e anelante. Do poço, sai assustada e silenciosa uma andorinha.”
ALBA
“Nas lentas madrugadas de inverno, quando os galos no alerta vêem as primeiras rosas de alba e as saúdam galantes, Platero farto de dormir, zurra longamente. Como é doce o seu despertar distante, na luz celeste que entra pelas frestas da alcova! Eu, desejoso também do dia, penso no sol, desde a minha cama fofa.
E penso o que teria sido do pobre Platero se, em vez de cair nas minhas mãos de poeta tivesse antes caído nas dalgum desses carvoeiros que vão, ainda de noite, pela dura escanha dos caminhos solitários, a roubar pinheiros montes, ou nas dum desses ciganos sórdidos, que pintam os burros e lhes dão arsénico e lhes pões alfinetes nas orelhas para que não lhas caiam.
Platero zurra de novo. Saberá que penso nele? Que importa? Na ternura do amanhecer, a sua lembrança é-me tão grata como a própria alba.
E, graças a Deus, ele tem um abrigo morno e brando como um berço, amoroso como o meu pensamento.”




.jpg)






