segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dia Mundial da Criança



A Fada das Crianças




Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.



À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia –
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.



E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas…



E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas…
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.


Fernando Pessoa





sexta-feira, 29 de maio de 2009

Os Meus Poetas


Gosto de poesia. Daquela cujas palavras deixam perfume nas nossas mãos e, sobretudo, na nossa alma. Poesia que se entenda como as coisas simples da vida. Sem grandes adjectivos e substantivos “eruditíssimos”. Não daquela que até espremida, como um limão, não deita nada a não ser, talvez, uma gota amarga do tempo que se perdeu ao lê-la. Não gosto da poesia carregada com um bom sobretudo de marca mas que ao tirá-lo deixa à mostra uma nudez inglória ou então uma roupa de feira de muito mau gosto. Não gosto de um desfile de palavras caras, que ficam bem, a mostrar uma cultura com pouca arte. Lembra-me os quadros que não dizem ou não representam nada mas são bons pelo nome de quem os pintou. E os livros? Alguns enfadonhos, maçudos, cansativos, mas é de bom tom dizer que se leu este ou aquele autor… Gosto de poesia que fale de sentimentos, de amor, de abraços e beijos… essas lamechices que tão bem cantou Florbela Espanca. Gosto de poesia embora a minha área de expressão literária preferencial seja, sem dúvida, a prosa. Por vezes peço desculpa aos verdadeiros poetas e “alinhavo” uns versos, simples, como eu.
Sigo o blogue Moçambicanto onde há uma verdadeira montra de poetas da minha terra. Entre eles está Jorge Viegas, meu conterrâneo, amigo e antigo colega. Juntos contracenamos na peça de teatro “A Muralha” de Calvo Sotelo, juntos trabalhamos como membros activos no Centro juvenil de Quelimane, juntos dissemos poesia. O seu primeiro livro, publicado ainda em Quelimane, foi um sucesso! Os poemas que hoje escolhi são de um outro livro, editado já em Portugal, intitulado “Novelo de Chamas”.

Um beijo para ti, Jorge!


Os Que Temem

Os que temem as palavras e as policiam
Devem saber que as máscaras cairão,
Sejam elas de lata ou papelão
ou de engodos fáceis que aliciam.

Os que temem as palavras e as esvaziam
Do seu conteúdo verdadeiro e são
E nas verdades suas se extasiam,
Usem as máscaras que usarem, são

O brilho de astros que há muito esfriam,
E o espaço morto de uma revolução.



Ao Escreveres Um Poema

Ao escreveres um poema
Não dês demasiada importância às palavras.
No poema, as palavras
Não existem verdadeiramente,
Não têm existência de facto.
No poema, as palavras
Não têm consistência.
Nem são sensíveis ao tacto.
No poema, as palavras serão simplesmente
As imagens que habitam
O mais profundo do teu ser.
E o teu poema violará o espaço aéreo
No bico das pombas
E será levado
Na franja marítima das ondas.


quarta-feira, 27 de maio de 2009

O Meu Jardim


Se há alguns anos atrás me dissessem que jardinar seria uma das minhas paixões, não acreditaria! Ainda bem que mudamos. É no meu jardim que eu reúno momentos tão dispersos da minha vida. Gosto dos apelos no seu silêncio. Enquanto corto a sebe a minha alma está aberta a todas as emoções.
Está um dia de sol aberto, maravilhoso. Todos se queixam: está calor! Eu respiro feliz: que delícia! Gosto do sol a morder-me na pele. As cores espalhadas pelo verde extasiam-me. Os aromas estonteiam-me e trazem-me recordações. A chilreada de centenas de passarinhos, que este ano invadiram todo o espaço exterior, é delícia para os meus ouvidos. Melhor que as partituras dos mais famosos, pelo menos mais natural.
Tesourada daqui, tesourada dali e os pensamentos são como os ventos, chegam à hora menos pensada. Como fugir deles? Não sei como fechá-los… Há um perfume de rosas (postas por ti) que reverdece as lembranças. Nesse dia tinhas aparado toda a sebe do jardim, as heras dos muros do quintal e do pátio. Foi um trabalho exaustivo, parecia-te que o mundo acabaria nesse dia e era preciso deixar tudo em ordem. Não acabou mas aproximava-se a curva da estrada. Atrás de ti ia juntando todos os ramos para ser depois mais fácil apanhá-los. Do fundo do quintal disseste-me: “Belo trabalho, miúda, belo trabalho”.
À noite, um vento gélido varreu as estrelas do céu e entrou-nos pela casa dentro. Começava a tua via-sacra. E eu, tal como Maria, acompanhava-te numa angústia, sem saber o que fazer. Mais uma vez tive a noção que a vida é a sala de espera para a eternidade. Escutara o teu canto de cisne, assistira ao teu desafio redobrado à volta da sebe, como andorinha estonteada à procura de fazer o seu ninho… Tudo eram sinais de esperança! No entanto, o teu passo acertava-se já com outros passos de um outro caminho. Partiste daí a um mês. Nem mais. Nem menos. Sempre foste rigoroso em tudo e por último não podias falhar.
É no jardim que eu sinto mais a tua presença e talvez por isso goste tanto dele e o cuide com tanto amor. Mas não há só lágrimas por cima das tuas rosas… Oiço rumores de beijos, risadas cúmplices de quem, apesar dos anos, ainda sabia namorar. A alegria de saber que no meu coração, e no teu, existia um lugar especial para nós dois.
Hoje, sem estares comigo, estás presente. Vejo-te nas flores que me rodeiam. A distância? Ela não consegue destruir aquele fio invisível que nos prende. Continuas ali, no nosso jardim… Apenas agora, quem poda a sebe sou eu.
De um lugar para onde todos nos encaminhamos, vais fiscalizando o meu trabalho e sinto no coração pequenas mensagens, como se, de facto, o nosso diálogo não tivesse ainda terminado. E o coração não me engana. Não sei dimensioná-lo, não sei descrevê-lo… mas esse lugar maravilhoso existe mesmo.
Gosto do meu jardim: nele colho sorrisos com que enfeito os meus lábios, recolho gotas de beijos e conheço novamente o gosto da felicidade. Leio e releio os livros que mais gosto. Estudo, pesquiso e, principalmente, reflicto… A Vida! Mas há mais vida? Então não é o passado todo e este presente? Não. Falta o amanhã. Nem que seja apenas um dia, mas há-de ser feliz, pleno e sem lamúrias.
Um dia, uma amiga que veio passar uns dias comigo disse-me: “Quem tem um jardim como o teu não tem o direito de estar triste”. E porque haveria eu de estar?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Os Nossos Domingos (IV)


Porque hoje é domingo vamos passar o dia na FAE!
Foi inaugurada no dia 15 de Agosto de 1969 com pompa e circunstância. A Zambézia inteira derreteu-se de orgulho e vaidade com a sua primeira Feira de Actividades Económicas. Era a montra possível e exaustiva de todo o distrito. De todo o país, da vizinha África do Sul e não só, chegavam visitantes ilustres e desconhecidos. A cidade parecia um intenso formigueiro com pensões e hotéis esgotadíssimos. O Governador Geral de Moçambique, Dr. Baltasar Rebello de Sousa, presidiu à sua inauguração, percorrendo depois toda a Feira, visitando em pormenor cada um dos mais de vinte pavilhões do certame. A FAE, para além do interesse mostruário que muito bem representou, trouxe também uma promoção turística às nossas belíssimas praias com relevo para a de Zalala que, na altura, começava a ter um desenvolvimento no plano de valorização.
A FAE só por si representou uma enorme propaganda, com benefícios para toda a Zambézia, num empreendimento audaz e grandioso. No dia da sua inauguração e nos fins de semana posteriores foi difícil arranjar espaço para tantas viaturas. Estacionava-se até ao velho aeroporto. Entrava-se pela estrada privada do Dúlio Ribeiro. Fazia-se cordão pelo bairro dos pescadores e ruas adjacentes. Só faltava mesmo estacionar em cima de uma palmeira… Era a loucura total! As noites também eram convidativas. Para além das visitas aos pavilhões, que demoravam horas, de alguns simpáticos bares e restaurantes, a boîte UAIA-UAIA funcionava permanentemente com um conjunto privativo e shows de bom cartaz. Berta Laurentino, vedeta do RCM, foi o primeiro chamariz bem acolhido pelos clientes da noite. Seguiram-se as Irmãs Muge e Zito que vieram da capital propositadamente para actuarem na boîte. Durante a semana a prata da casa fazia a festa: Emília Duarte, Tété, Firmino Teixeira, Luís Guimarães e o Duo Pérolas, acompanhados pelo conjunto residente The Blue Twisters. Também outros programas lúdicos e desportivos seguiam a par e passo de toda a vida da FAE, como a exposição da escultora Arminda Oliveira, concursos de dança e fotografia, o torneio de tiro aos pratos, a presença do Circo Mariano que constituiu outra oportuna atracção e ainda o pequeno comboio infantil que, carregado de crianças, ziguezagueava pelos arruamentos da Feira. O programa desportivo encerrou com um importante Torneio de Ténis onde participaram os maiores valores da modalidade em Moçambique: António Trindade, Victor Carvalho e Marina Pimentel de Lourenço Marques; Dino Zolezzi, Ramiro Rodrigues e Maria José Silva da Beira; Manuel Nascimento e José Maio de Quelimane e três dos melhores tenistas do Malawi.
Quando o simpático porteiro da FAE, José Macedo Sequeira, fechou as portas do certame, já os seus organizadores pensavam com certeza, e em grande, a Feira das Actividades Económicas da Zambézia - 1970! E foi mesmo!

A seguir à Fonte Luminosa, que dava as boas vindas aos visitantes, ficava um espaço colorido emoldurado pelo verde das palmeiras e com que, gulosamente, os nossos olhos se deleitavam.


1-O pavilhão da Kruger, moderno na sua concepção, situava-se quase logo à entrada do recinto.


2-O pavilhão das Comunicações, com um sol, símbolo muito significativo do seu conteúdo. As assistentes do mesmo: Graça Pereira e Regina.



3- Visitando o pavilhão da Câmara Municipal, interessante no historial da cidade e com recantos agradáveis para receber as suas “visitas”.


4- Junto ao “meu” pavilhão, com as palmeiras sempre por fundo. Por todo o lado, para além das flores, existiam pequenos apontamentos arquitectónicos que tornavam o visual da Feira muito arrojado e bonito de se ver.


5- O Pavilhão da Kodam; para mim, dos mais bonitos e imaginativos.


6-Marinheiras em terra… Outro apontamento com algum significado que agora já não me recordo. Por detrás o pavilhão maravilhoso, imitando uma grande palhota, da Boîte UAIA-UAIA!


7-Em frente do pavilhão do RCM - Emissor Regional da Zambézia.

E muitos outros pavilhões ficam por mostrar, entre eles o que alcançou o 1º lugar no concurso. Fica para uma segunda parte deste tema: FAE!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Schwarzenegger do Chuabo


As palavras e as recordações são como as cerejas que hoje comi ao jantar: vêm umas atrás das outras. E é de noite que a ave da lembrança vem fazer ninho no meu coração e me leva com as suas asas, no meio deste silêncio, a outras paragens. Não quero deformar imagens, acontecimentos e tantos episódios que aqui relato. Tento ser fiel e, para isso, subo ao terraço da minha alma e olho o infinito à procura, talvez, de mim própria. E espero. Noites longas, tantas… E com o vento suave da memória chegam as peças do cenário que eu levanto como se fosse um baralho de cartas.
Tínhamos ido, o grupo habitual, aos arredores de Coalane distribuir as senhas para as refeições da semana, pão e alguma roupa aos carenciados que estavam a nosso cargo. Eu era a única que tinha carro, bem pequenino por sinal: um Fiat 500, vermelhinho como as ditas cerejas. Nessa altura, havia um agente da polícia de viação que andava numa moto potente que era o Schwarzenegger lá do sítio. Quase dois metros de altura, largura de um bloco de cimento e um rosto patibular. Todos tinham receio porque o senhor não se fazia rogado para passar multas aos mais incautos e desprevenidos. Diziam que por detrás daquela máscara não havia um coração. Junto à estação de serviço que ficava do lado direito quando se entrava na cidade (uma das últimas a ser construída) o agente mandou-me parar. Ali perto existiam meia dúzia de palmeiras que os corvos, não sei porquê, utilizavam como ninhos. Grasnavam todo o dia que era uma perdição. Ora nesse momento o coro silenciou-se, talvez atento ao que se iria passar.
- Encoste aí o carro menina e mostre-me os seus documentos.
Fazíamos companhia aos corvos num silêncio de morte. Abriu-me a porta do carro e mandou-me sair. Como o gigante olhando Golias perguntou-me secamente:
- Conhece a lotação da sua viatura?
- Claro, senhor Guarda, são 2 lugares!
- Ah, então não é por ignorância!
Afoitamente respondi-lhe:
- Não, não, é por necessidade.
As minhas amigas quase sumiam por debaixo dos pequenos bancos. Rodopiou os calcanhares e direito que nem um fuso dirigiu-se ao outro lado; abrindo também a porta executou o mesmo cerimonial:
- Façam o favor de sair uma a uma.
Era escusado dizê-lo, ali entrava-se de calçadeira e saía-se de saca-rolhas. Como quem conta limões qual vendedor do mercado que até ficava ali perto, começou:
- Uma, duas, três, quatro, cinco e seis.
E voltando-se para mim perguntou ainda mais exaltado:
- Que me diz a isto menina?
- Que somos elegantes. - respondi prontamente.
Alguém abafou uma gargalhada.
- Lamento mas vou passar-lhe uma multa!
E punha o livro das famigeradas multas em cimo do capot do meu “Boguinhas”.
- Como entender senhor guarda, na certeza porém que amanhã voltaremos a fazer o mesmo, a não ser que o senhor faça a amabilidade de nos ajudar com a sua mota a levar material para sete famílias a quem damos assistência. A Luísa dizia atrás de mim:
- Vais ser presa!
Tal como o primeiro sucesso não significa vitória, também o primeiro fracasso não significa derrota. A serenidade é a força dos fortes e a iniciativa faz parte do discernimento. Ele fechou o bloco devagar e indagou mais suavemente:
- Vocês fazem parte de algum grupo ou movimento?
Voltou o coro dos corvos. Bem ensaiadinhas numa só voz:
- Somos do Centro Juvenil de Quelimane!
- Mas então a Igreja ou o Padre não vos faculta um transporte? - Rimo-nos!
- Conhece o Padre Bernardino, aquele que calcorreia a cidade numa velha bicicleta? Pois é esse o responsável pelo Movimento. Está a ver sete moças em cima daquela bicicleta?
Finalmente humanizava-se:
- Claro que não e o que fazem é muito meritório…
Ficou algum tempo calado; depois lá terá pensado que estava a perder autoridade às mãos de umas miúdas e recuou na sua fraternidade:
- Vamos fazer assim, a menina leva agora três das suas amigas e depois vem buscar as outras três. Eu fico aqui com elas.
Não nos podíamos queixar… pelo menos o iceberg mostrara ter um pouco de coração e não nos penalizara. Tínhamos tido sorte! Quando regressei para levar as outras três, recomendou ainda:
- Façam por não se encontrarem comigo…
Ao que eu lhe respondi:
- Faça o senhor também por não nos ver, o que será fácil, o meu carro é o único Fiat vermelhinho que existe na cidade!
Riu-se:
- Já tinha notado!
E lá foi o Schwarzenegger à procura não de uma mas de duas multas, para compensar o momento em que fraquejou.
Nós ficamos a pensar que o Guarda não era tão mau como se constava; afinal, quem vê caras não vê corações, mesmo os que, a princípio, parecem nem existir!