
Os cestos arrumadinhos a um canto, brilhavam em asseio e colorido. Quanta coisa boa levavam e que cheirinho apetitoso andava no ar…
- Eh, Manel, acorda homem que o rapazio já lá vai adiante junto à casa da Ti Zefa. De caminho chegamos atrasados…
A tia Maria, atarefada, punha tudo a toque de caixa. Lá adiante soam as concertinas e ouvem-se cantigas ao desafio. O calor aperta cada vez mais e o Manel, muito à surripiada vai deitando os beiços ao garrafão de vinho.
- Ó Joana, não vás tão depressa porque logo estás derreada e não há quem te ature…
Mas a gente nova quer lá saber dos conselhos dos velhos! É cantar, bailar e correr porque a tristeza não é com eles.
Ao longe, já se vêem os arcos do adro enfeitados com gosto e com arte. Estalam foguetes no ar e o coração da Joana bate mais depressa porque o Zé da Fonte já lhe prometeu ser seu par no primeiro vira, depois da Missa.
A Ti Maria mais o seu Manel dão uma volta pelas barracas a ver o movimento.
- Ai Manel que a gente vai para casa sem um tostão… - E os olhos admiram com sofreguidão aquela blusa de rendas, tão linda, igual à da mulher do regedor. Não que ela não quer ficar para trás e, às escondidas, a sua gorducha mão tira do saquito duas pesadas moedas.
- A alegria é bênção de Deus! – Dizia o prior do alto do seu púlpito… mas, quem o ouvia?
A Joana, à socapa, vai deitando umas olhadelas ao Zé, a Ti Maria sonha com a blusa que dirá bem com a saia preta e o Manel, ah esse, pensa com deleite no farnelzinho que ainda fumega lá fora…
O sol já se põe e a noite não tarda a chegar com o seu manto estrelado. Ainda há alegria e cantigas a jorro. A rapaziada não arredou pé e o vinho corre em quantidade.
A Ti Maria pensa que já não está para estas coisas… se não fosse a sua Joana, já há muito estaria de abalada.
- Ó Manel, falaste ao Ti Joaquim na compra dos borregos? Olha que é de aproveitar a maré antes que ele arrefeça.
O Manel não responde e com um pé continua a marcar o compasso do vira.
O dianho da mulher que nem em dia de romaria deixa de pensar nos negócios!
Já quase não há ninguém e é a Ti Maria que, mais uma vez, dá ordens, agora ordens de regresso.
- Ó mulher mexe-te que não vá acontecer apanharmos a madrugada no caminho… O teu pai que te ajude. Que é das compras que fizemos na barraca da Cândida?
E à confusão das compras e das arrumações, junta-se o cansaço de todos tornando o regresso mais lento, apesar dos resmungos da Tia Maria.
- Ó Ti João, espere por nós que também vamos. O Manel já está lá na frente com o Francisco e a mula.
Ninguém fala porque o cansaço não os deixa à vontade. A Ti Maria vai fazendo contas do que gastou e fica aflita com o resultado. O Manel pensa que o caminho de regresso é muito mais longo… ou será ilusão sua?
A Joana suspira e pede a Deus que o seu Zé não a esqueça e a peça em casamento na próxima romaria.
(Escrito com 17 anos, sem conhecer Portugal e publicado no jornal juvenil "Mais Além" do qual fui fundadora)
Não era preciso conhecer-se. Sabiamo-lo pelos textos nas "Selectas" dos Liceus e nos Livros da Primária e por outras leituras (Júlio Dinis).
ResponderEliminarPor isso, este texto tão realista que ilustraste tão bem com as sonoridades dos falares.
Gostei muito!
Um abraço apertadinho
Laura
Que lindo texto ,narrando tão bem tudo aquilo lá . Desde novinha já escrevias muito bem!Parabéns! beijos,chica
ResponderEliminarmaravilha graça adorei!!!! abraços.
ResponderEliminarIa a comentar... depois tropecei nos teus 17 anitos
ResponderEliminarE pensei, comovido, como é que o Império poderia ter sobrevivido. A alma estava onde se esperava que estivesse...
Do contado, há uma realidade que sobrevive: O dianho das mulheres nem em dias de romaria deixam de pensar na sobrevivência...
(hoje, por acaso, dava-me jeito uma palavra sua, lá na minha rua...)
Mesmo além-mar , reproduziste na integra ,com a tua escrita fluente que sempre me prende,"Um dia de romaria".
ResponderEliminarOs meus sinceros parabéns!
Beijinhos.
Lindo texto Graça! Nunca pensaria vir encontrá-la depois de ter passado, dois anos por Quelimane, 1969/1970 de quando da FAEZ que a sonorizei. Belas recordações! Saudações de Banguecoque - Tailândia
ResponderEliminarOlá José
ResponderEliminarDe tão longe pode vir lembranças de Amigos...fiquei contente! A FAEZ, fez-nos tão felizes...e acho que foi um orgulho de todos nós que lá trabalhamos. Sentia -mo-nos grandes...capazes de agarrar o futuro mas, ele fugiu-nos... Vai dando notícias, gostarei muito.
Um abraço.
Nas duas vezes que passei por Quelimane fui muito feliz na FAEZ...Incrível como ali, facilmente, se faziam amigos.Era um jovem e então com outros amigos de Quelimane,pela noite guiando o carro, entre a picada do coqueiral, íamos até à praia de Zalala e por ali ficavamos deitados na areia à luz do luar...Amei, silenciosamente,sem nunca me declarar a Regina (Gina)dos correios....Depois de breve estadia em Quelimane, rumei fiz base em Tete, dali para Lourenço Marques e segui, depois, por seis anos para a Rodésia de Iam Smith. Fui feliz naquele país e pensei por lá ficar para sempre. Ventos de violência sopraram de Moçambique, depois da indepência e parti para a terra que tinha sido parido. Não me adaptei e emigrei novamente e agora para os países árabes. Por 10 anos recuperei o tempo perdido. Em 1987 veio a crise do preço das ramas de petróleo e fui na leva com mais de 5 mil.Casei uma mulher chinesa que me deu uma Maria de Portugal. Perdido o emprego com os americanos na exploração do petróleo, entrei para a Embaixada de Portugal em Banguecoque, fui integrado no funcionalismo público. Atingi a reforma e para o resto da vida aqui ficarei.... Somos isto os portugueses que em qualquer galho, como os pombos correios, pousamos... Abraço de amizade
EliminarOlá Graça
ResponderEliminarSeu texto foi uma festa para minha imaginação. Dinâmico e movimentado deu até vontade de participar dessa romaria.
Bjux
Que bem que relataste aqui as romarias populares! Nasci numa aldeia e vivi lá até casar; lembro bem dessas azáfamas em dia de festa e até do vocabulário, por exemplo " o dianho da mulher " Era assim mesmo, Graça! Não havia outro tipo de distracções e nem ocasiões para se colocar as melhores roupas que ficavam guardadas para ir à missa e às festas. Muito obrigada, amiga por me fazeres voltar no tempo e recordar as romarias na minha aldeia. Hoje, já não têm a mesma graça e poucas pessoas aparecem.
ResponderEliminarUm beijinho e desejo-te uma boa semana
Emília
Pois podia muito bem ter-se passado numa romaria Portuguesa.
ResponderEliminarUm lindo e real texto...
Digo eu.....'real'...
Beijo
Não sei como está por aí, mas aqui as ROMARIAS se extinguem a cada dia que passa. Os jovens não querem mais agarrar as tradições de seus antepassados, dos mais velhos da família.
ResponderEliminarTrouxe-me uma saudade tão grande!!!
Um terno abraço, Gracita!!!
Olá minha linda amiga, faz tempo que não nos viamos, nem sequer teclavamos uma com a outra. Desejo que esteja tudo na maior por aí eu neste momento na graça de Deus estou bem que para mal já basta, tudo tem corrido bem excepto o caso da neta, que ainda está o caso no tribunal e não vejo maneira de ser resolvido. Mas Deus é grande e magestoso e esse também se irá resolver, tenha um lindo dia com beijinhos de luz e muita paz.
ResponderEliminarQuando escreveu, entrou noutra dimensão do tempo
ResponderEliminare teve uma antecipação do Futuro.
Beijos,
Maria Luísa
Imaginou muito bem uma das muitas romarias que sempre se
ResponderEliminarfizeram em Portugal(continente).
Beijinhos
Irene Alves
Que lindo texto! Um talento inato! :D Beijinhos grandes querida
ResponderEliminarBons tempos que ficam na lembrança, uns que se foram e outros que ainda virão...
ResponderEliminarAbraço!
http://bymeandthetime.blogspot.com/
http://www.youtube.com/user/ByMeAndTheTime
Tem muito mérito...
ResponderEliminarAs romarias enchem as ruas e os caminhos da nossa terra de luz, cor e, sobre todo, alegria. Algo que caracteriza o nosso povo, a nossa gente. Humilde, trabalhadora, mas também amiga de festas.
Gosto.
Não me disseste nada daquilo que te enviei.
Um abraço bem grande
Querido amigo
ResponderEliminarDeixei há pouco mais de meia hora um comentário no teu blogue...pensei em fazer-te uma surpresa mas...pronto está dito!
Vamos lá ver como me saio...
Beijo amigo e grato.
Graça
Pelo que leio, a nossa Graça já era brilhante aos 17 anitos!!
ResponderEliminarBjs
ResponderEliminarEstamos de nuevo en el mes del amor y la amistad…
Las flores ensalzarán la brillantez de los textos y la poesía recorrerá las cumbres de la vida en busca de la esencia de ese amor desconocido, hasta encontrarlo…
Y yo un gorrión con patitas de algodón quisiera ser…
Para refugiarme, en las alforjas del tiempo y presenciar la complicidad de la luna en el teclado del silencio, que ingenuo se sonrojará, de aquellos sueños poéticos que viajaran por las cornisas del pensamiento en busca de la utopía del amanecer…
Un abrazo de emociones
Y un beso de ilusiones.
Atte.
María Del Carmen
As romarias são bem, parte importante do sentimento das gentes do Norte.
ResponderEliminarBeijinhos!
ResponderEliminarÉ com grande satisfação que recebo a confirmação da recepção dos livros. Estão feitos com muito carinho.
Claro que sim, procede como consideres oportuno, para mim será um grande orgulho.
Tudo aquilo que fazes está muito bem feito, será obra prima...
Todo o meu afecto num grande abraço
Algum tempo que não visitava o seu blog, hoje encontrei-o e vim fazer uma visita, gostei do seu texto, depois de casa roubada trancas na porta, primeiro gastou e depois faz as contas, claro que dá sempre mal, mas boa imaginação.
ResponderEliminarAntónio.
Ps. Meu blog é o Peregrino E Servo.
Querida amiga Graça!
ResponderEliminarDe um jornal foste fundadora
Aos dezassete anos de idade
Eras uma pequena escritora
Hoje das letras és uma senhora
Com nome grande e certificado
O ti manel e a ti Maria
Olvidaram a lida do campo
Foram os dois há romaria
nessa noite bailaram tanto
Na sua prece com muita fé
Joana uma menina singela
Olhava à socapa para o Zé
Orando que casasse com ela
com os beiços no garrafão
O Manel dava banho há goela
A ti Maria quase sem ter tostão
O Manel não lembrava mais dela
Beijinhos com carinho
José.
.
ResponderEliminar.
. exemplar . querida graça .
.
. aqui está . uma prova in.equívoca . de um dote que nasceu conSigo . e que ja.mais morrerá . porque permanecerá para sempre . no coração de quem pode e soube lê.la . de fio a pavio .
.
. bem.haja .
.
. um beijo meu . sempre terno .
.
.
Excelente, adorei ler e tu já eras uma senhora com 17 aninhos!
ResponderEliminarboa semana Graça
beijinho e uma flor
Muito, muito bonito, Graça!! Gostei muito! Deu para sentir!!!
ResponderEliminarbeijos
Graça, amiga minha! Na verdade, quem tem talento escreve em qualquer idade, minha mãezinha já dizia que "o que é bom já nasce feito". Você é a prova perfeita desse sábio ditado popular.
ResponderEliminarNossa, como adoro essas tradições portuguesas!
Querida, também tenho andado meio pra baixo, mas vamos reagir, tá?Rsrs.
Te adorooooo...de coração!!!!
para lá dos 17 anos que escreviam muito bem,
ResponderEliminareu adoro feiras e romarias! e comer churros e comprar rifas
é assim uma coisa que me ficou, quando tinha 17 anos a dividir por duas
um beijo, Graça
Nossa Graça...então já de pequena escrevia GRANDE?! Gostei imenso de sua visita e saiba, amiga, que por aqui, infelizmente, não careço do inverno para estar em depressão...fazer o quê? Um dia de cada vez!
ResponderEliminarBeijuuss saudosos
Amiga!
ResponderEliminarAmo tuas histórias! Aqui no Brasil, costuma-se fazer romarias nas cidades do interior. Certas tradições vão se perdendo, se transformando de alguma forma.
Uma bela narração, um dom especial que tens! Parabéns, minha querida!
Beijos, muitos beijos!
Vejo que começou cedo e já escrevia bem. Parabéns!
ResponderEliminarbjs
Querida amiga Gracia, ya con tu corta edad a puntabas ser buena escritora, mis felicitaciones para ti, te dejo un abrazo, con cariño. Lola Barea.
ResponderEliminarFeliz fin de semana.
Um texto muito bonito a recordar tempos de antigamente.
ResponderEliminarUm abraço e bom fim de semana
Amiga Graça
ResponderEliminarTeu talento veio nas tuas veias e os teus olhos sempre viram a vida de modo especial.
Este dom, do qual desfrutamos nas leituras, te foi dado como um presente.
Ler-te e viver o que viveste ou o que criaste.
Beijinhos
Uma bela romaria, parabéns portão bela história.
ResponderEliminarOi Graça, nasceste com talento para escrever uma historia de gente grande de tão boa que é, sabes que sempre admirei os teus escritos sou tua fâ. Um abraço fraterno
ResponderEliminar
ResponderEliminarPaso a saludarte…
Vestida de felicidad,
Con rosas de paciencia
Y aromas de prudencia.
Deseando…
Que el fin de semana valla pasando
Enarbolando,
Los sueños que te vallan rozando.
Atte.
María Del Carmen
Já bem cedo esta Graça revelou o seu talento. Texto de grande beleza que me fez sentir dentro da romaria e torcendo para o Zé pedir a mão da Joana em casamento.
ResponderEliminarBjs.
Olá Graça,
ResponderEliminarQue arte e que alma a tua nos teus 17 aninhos! Ao começar a ler-te ninguém diria que este texto foi escrito a essa distância física e temporal.
Ando arredada da net, mas quis visitar-te, como se visitam os velhos amigos de alma disponível para estar com eles, porque nos marcaram, porque não nos saem da cabeça.
Gostei de saber de ti, através das tuas palavras, das tuas dádivas, mulher de partilhas e de afectos.
Fica bem, sempre.
Beijinhos
Branca
Estilo é o que vejo em seus bons textos!
ResponderEliminarParabéns e um bom final de semana
Esta é a vantagem de guardar as coisas que vamos escrevendo aqui e ali, eu não guardei nada, uma pena!
ResponderEliminarBeijos menina, uma ótima semana para ti
Minha querida Gracinha
ResponderEliminarO dom nasceu contigo, escreves bem agora e como se vê neste texto já o fazias desde nova.
Um beijinho com carinho
Sonhadora
Olá, Graça!
ResponderEliminarEste teu texto tem o gostinho bom do linguajar das gentes simples do campo,na sua forma despreocupada de conversar - como se esta história fosse contada por um deles, e não por ti.
Como se costuma por lá dizer: tens dedo para a escrita, e pelos visto logo deste muito novinha.Parabéns; a história está uma delícia.
Bom Carnaval, se for esse o caso.
Beijinhos
Vitor
E você, é uma destas pessoas especiais.
ResponderEliminarSua sensibilidade, sua atenção e seu carinho!
É algo que toca profundamente meu coração.
Que Deus continue iluminando você nos caminhos da vida.
Sua amizade e carinho é muito importante para mim,
tenha certeza é fundamental para mim cada palavra
que deixa nos comentários do meu blog.
Lembre-se a beleza é a que emana de nossa alma,
engrandece seu coração.
E sua ALMA É Linda.
Um feliz feriado .
uma abençoada semana.
beijos,Evanir.
Amiga belíssimo texto.
Lindo!... Pode ser que o corpo nunca tivesse estado em Portugal, mas a alma, sim. Não tenho dúvidas.
ResponderEliminarPela mão de Júlio Dinis, quem sabe?
Um beijo
Excelente texto....
ResponderEliminarCumprimentos
Com 17 anos já tinhas uma escrita amadurecida, parabéns!! Cabe à nós usufruir e agradecer! Beijus,
ResponderEliminar
ResponderEliminarLlevo unos días alejada de mi residencia habitual y se me hace costoso compaginarlo todo al mismo tiempo. Pero antes de finalizar el día del amor y la amistad, quisiera darte las gracias por estar siempre acompañándome con la ternura de las palabras, que me hacen sentir muy afortunada por encontrarnos paseando por las colinas de este espacio virtual.
Miles de besos
Y miles de razones
Para sentirse muy feliz
Abrazando la magia de San Valentín.
Y mil disculpas por mi parte,
Si hoy es un día ualquiera para ti...
Atte.
María Del Carmen
Minha Querida Amiga Graça,
ResponderEliminarEstava eu pensando no belo retrato de uma romaria que julgava ter vivido quando tropecei no seu comentário final: Escrito com 17 anos, sem conhecer Portugal e publicado no jornal juvenil "Mais Além" do qual fui fundadora. Fiquei espantado com a realidade posta na sua Romaria! Parabéns pois bem merecia um grande prémio pelo trabalho apresentado! Adorei!
Beijinhos muito amigos.
Olá, querida graça
ResponderEliminarQue bom ver o seu potencial desde tão cedinho!!!
To voltando das férias...
Bjm de paz e alegria
Olá Graça
ResponderEliminarAqui estou te desejando o melhor que possas usufruir da vida
e que as tuas lembranças nos possam continuar a deleitar.
Com carinho,
Maria Luísa