terça-feira, 9 de março de 2010

Um Principezinho


O meu principezinho chamava-se Calhambeque.
Apareceu um dia em nossa casa:
- Senhora, precisa miúdo?
- E tu sabes fazer o quê?
- Varrer o chão e brincar c’os minino!
Está bem, podes ficar. Qual é o teu nome?
- É mesmo Jerónimo.
Sim, nessa altura era mesmo Jerónimo mas depois, por influência do Roberto Carlos, dum calhambeque estampado na camisola do Rui e de um calhambeque brinquedo que o Pai Natal trouxera ao Joãozinho, passou a ser “Calhambeque”.
Quando às vezes, por brincadeira, alguém o chamava: “Jerónimo, anda cá…”, ele voltava as costas, amuado, e não respondia.
Era muito engraçado o meu Principezinho – corpo pequeno mas bem proporcionado, pele escura, cabelo encaracolado e curto, mas olhos muito vivos, amendoados e em constante movimento, um ar de permanente interrogação.
Levantava-se cedíssimo, antes do sol nascer; conhecia todos os frutos silvestres, todos os pássaros, todos os bichitos pequenos que se escondiam no capim; sabia sempre qual o caminho para voltar para casa.
Grande amizade o unia ao Boby, o nosso cão; todas as tardes tinham grandes conciliábulos encostados ao tronco da goiabeira do quintal.
Às vezes não se lembrava de varrer o pátio, mas a casota do Boby estava sempre impecável.
No entanto, estas longas conversas eram-nos sempre interditas e tínhamos de ficar na escada de pedra a olhar, admirados e um tudo ou nada invejosos pelo franco entendimento dos dois.
Acontecia até que, quando o Calhambeque via o Boby, parecia rir-se também. Era demais!
- Calhambeque, vamos jogar à bola. E a tarde acabava num movimentado desafio com muitos golos.
… e agora rematava o Eusébio: golo! – O Eusébio rematava sempre dos lados!
Nunca nenhum de nós tinha visto jogar um clube metropolitano e os nomes quase nada nos diziam – Sporting, Benfica, Ferroviário – era tudo o mesmo. Mas o Eusébio, não; esse era o maior.
- Qual é o maior jogador do mundo, Calhambeque?
- É mesmo Eusébio.
- Então, tu és do Benfica?
- Sim, do Benfica daqui.. o único que tínhamos visto jogar.
- Calhambeque, amanhã o Joãozinho vai para a Escola. Vem fazer as contas com ele.
Mas os números eram demasiado abstractos.
- Mas ouve, Calhambeque, se não aprenderes os algarismos e a tabuada, nunca saberás fazer uma conta. Precisas de saber contar.
- Mas contar para quê?
Sim, para quê se ele tinha tudo – todos os pássaros, todos os frutos, todas as estrelas, todos os grilos do jardim, todos os raminhos duros para fazer fisgas – tudo.
- Ora, contar dinheiro, por exemplo. Quando ganhares muito dinheiro…
- Eu não precisa dinheiro.
E sorria, feliz, de braços abertos pelo quintal cheio de sol. Todos invejávamos a sua liberdade e a sua sabedoria de pequeno feiticeiro.


O planeta do meu Principezinho não era lá muito distante.
- Quantos quilómetros, não sabe.
- Mas é muito longe?
- Não, é só um dia…
E assim, a um dia de caminho ficava esse planeta misterioso que nós imaginávamos cheio de palhotas e coqueiros, talvez uma grande mangueira, á volta da qual correriam crianças e cães, galinhas e algum cabritito. Um planeta cheio de vida, com noites de luar e batuques, cujo ritmo avinhávamos no corpito ágil do Calhambeque.
Uma lata de azeite era o tambor. Nunca as nossas mãos tiraram de lá aqueles sons, nunca os nossos pés desenharam no chão batido e seco arabescos tão rápidos e confusos, nunca compreendemos o prazer com que se entregava à música, nem a exaltação que punha em todas as suas danças.
Mas, um dia, o meu Principezinho foi-se embora… Tal como viera, desapareceu. Os dias continuaram iguais, talvez depois, um pouco monótonos. Alguma coisa o chamava do seu planeta. Uma fogueira acesa na noite, uma palhota cheia de fumo e vozes… um cãozito rafeiro ladrando à Lua… sei lá! Nunca esqueci o meu Principezinho de pele escura e, quando olho a lua das minhas recordações, interrogo-me se ele ainda se lembrará de nós…

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher

Foi num dia 8 de Março que partiste
E deixaste tão só a tua “Miúda” mas sabias que ela se tornaria verdadeiramente MULHER!


Não Morreu!...

Levanta o olhar para lá das nuvens
Da tristeza e da saudade e solidão…
Verás que aquele que amas continua teu,
Porque está vivo!..
Adormeceu…

Rasga o nevoeiro denso da amargura
Com os faróis da Fé e da Esperança,
E verás que aquele que amas continua
Teu,
Porque está vivo!...
Adormeceu…

E quando transpuseres a curva da morte
Na caminhada veloz para os céus,
Reencontrarás aquele que partiu e amas
Eternamente vivo
Na vida de Deus.


- Mário Salgueirinho

sexta-feira, 5 de março de 2010

Homenagem às Mulheres


De madrugada, quando o sol é ainda uma estilha cor-de-rosa e as acácias arranham o céu com silhuetas grotescas, o canto dos galos – um no assento de um tractor, outro numa lata de gasolina caída, outro no telhado de colmo do celeiro – acorda as mulheres nas terras áridas de África. Como um só corpo, levantam-se, amarram os lenços à cabeça e os bebés às costas, põe lenha a
arder sob os caldeirões, separam comida para as galinhas e porcos, amontoam papa de aveia em tigelas, amaldiçoam o cão e fazem fila para a bomba de água. Quando o sol nasce - um malévolo olho laranja – metem-se pelo trilho traçado no mato por gerações de pés endurecidos pelo trabalho, e dirigem-se ao campo para passar o dia.
Nas planícies húmidas da Ásia, a madrugada põe também as mulheres em movimento: rastejam para fora dos seus mosquiteiros, enrolam firmemente os seus saris, sopram o braseiro para o avivar, desfazem-se em meiguices para convencer os filhos a comer arroz e os bezerros a comer papa de aveia, conduzem o búfalo para os arrozais envoltos em nevoeiro, e depois avançam para a tépida água castanha e vergam-se, assim permanecendo durante todo o dia.
Nos Andes é o sino da Igreja e os cães a ladrar que acordam as mulheres. Murmuram uma oração, apertam uma saia, arrastam baldes de água desde o poço na praça da aldeia, prendem as cabras e ordenham-nas para um velho balde de alumínio, aquecem feijões e despejam-nos em pratos de latão.
Depois, fechando uma porta raquítica, avançam pelo trilho íngreme e pedregoso que vai das suas casas até aos campos.
Outras são acordadas pelos chamamentos para a oração do alto dos minaretes das mesquitas; por macacos a zurrar pendurados em oliveiras; por vacas a mugir, com as tetas intumescidas e cheias de leite.
Estas mulheres, que vivem nas zonas rurais de todo o mundo, são agricultoras em tudo menos no nome. E a sua labuta produz metade da alimentação mundial.
Para sermos iguais temos que assumir o que realmente somos; e nós, mulheres, nunca seremos mulheres iguais se não nos amarmos umas às outras.

quinta-feira, 4 de março de 2010

POSSO TOCAR NO NARIZ DO TEU BLOGUE???


Este é um selo que recebi do FRANCISCO do blog VALE DOS SENTIDOS e ainda do famosíssimo NAMORADO DA RIA.



Tal como ele, não gosto muito de selos com JOGUINHOS porque o espaço na PALHOTA é pequeno como sabem… Só os selos (que adoro) pois lá os vou encaixando numa varandita que dá sobre o palmar. E em noite de luar… como brilham. Obrigada pela vossa AMIZADE!
Mas pronto, vou fazer a vontade ao FRANCISCO, porque, aqui que ninguém nos ouve, ele é perito em arranjar-me que fazer!!! Não estou a brincar… Para comprovar o que vos DIGO, leiam JÁ o post a seguir onde está TODA A VERDADE…

Vamos lá então às perguntas e respostas:
1- Dizer uma coisa que gosto em mim: Força de vontade!
2- Dizer uma coisa sobre o blog de onde recebeu o selo: É um blog VARIADO como eu gosto, com boa escrita, histórias maravilhosas e com SINCERIDADE total.
3- Desafiar 5 blogues para responderem a este Desafio, explicando o motivo da escolha (Vou falar antes dos autores como fez o Francisco):

1-CASA DO RAU (NÁ) - Pelo seu carinho e AMIZADE altruísta, disponibilizando-se SEMPRE a fazer o OUTRO feliz. (Eu que o diga…)

2-INFINITO PARTICULAR (MALÚ) - Porque toda ela é doçura, expressividade e de uma delicadeza única. Amo esta BRASILEIRA.


3-MARIA CUSCA (LINA) - É uma AMIGA! Já não passo sem as suas VISITAS e o seu CARINHO Depois…tem umas mãos de fada…Visitem o seu blog para verem maravilhas…


4-CONSTÂNCIA (VILA POEMA) (MANUEL MARQUES) - Porque é dos AMIGOS quase da PRIMEIRA HORA. Deu-me sempre APOIO e visita-me ASSIDUAMENTE. Adoro o seu BLOG sempre com ÓPTIMAS postagens.

5-PERFUME DE JACARANDÁ (LIS) - Pela suavidade das suas postagens que deixam ADVINHAR (E SENTIR) uma alma SENSÍVEL e BONITA. Quando venho de LÁ, até o meu coração vem PERFUMADO.


4- Dizer uma coisa que goste nos blogues escolhidos: Se os escolhi, é porque GOSTO de TUDO o que eles nos OFERECEM. Fico só com uma MÁGOA: não poder escolher TODOS os meus SEGUIDORES e AMIGOS porque são eles TODOS JUNTOS (sem excepção) o SOL dos meus DIAS. A minha AMIZADE é TODA VOSSA. -GRAÇA


PRIMEIRO DESAFIO DO “ NAMORADO DA RIA”
O Francisco propôs um DESAFIO INTERESSANTE a que TODOS podemos, e devemos, ADERIR. Mas vou deixá-lo falar:

“”“Convido-vos a TODOS a participar nesta INICIATIVA, enviando um texto INÉDITO e que aborde um tema que normalmente não publicariam nos vossos blogs. Algo que SURPRENDA a todos, por acharem que não tem nada a ver com a pessoa que julgam conhecer,mesmo que virtualmente. Encarem-no como um DESAFIO PESSOAL, que vos obrigue a mudar de estilo. Ou algo que sempre tiveram vontade de DIZER ou de CONTAR e que nunca se atreveram por qualquer motivo.

ATREVAM-SE a participar e DIVULGUEM este desafio nos VOSSOS blogues.

Vai ser ENGRAÇADO!!

REGULAMENTO

1-Os textos deverão ser enviados para o email disponível no meu perfil.

2-Os textos serão postados neste blog (do Francisco) TODOS de uma vez.

3-Os textos deverão ser enviados até à meia-noite do dia 14 de Março.

4-Poderão participar TODOS os visitantes REGISTADOS neste blog ( do Francisco).
5-Poderão votar TODOS os VISITANTES REGISTADOS neste blog (do Francisco) através de comentário, considerando-se VÁLIDO apenas UM voto por PERFIL.
6-Todos os textos serão publicados sem ASSINATURA, sendo IDENTIFICADOS pelo TÍTULO. A sua autoria só será divulgada DEPOIS do final do Concurso.

7-A AUTORIA nunca será divulgada se o AUTOR assim DESEJAR. ESSA INFORMAÇÃO DEVE ACOMPANHAR O TEXTO.
8-Não serão permitidos textos de índole insultuosos ou caluniosos que visem atingir terceiros.
9-Os VOTOS serão aceites até ao DIA 21 de MARÇO, sendo o RESULTADO anunciado à MEIA-NOITE do mesmo DIA.

10-Será SELECCIONADO apenas UM TEXTO. O que for publicamente MAIS VOTADO.

11-O CONTEMPLADO receberá de PRÉMIO o direito de ter o seu blog em DESTAQUE ali na BARRA LATERAL, pelo período de UM ANO, e ainda…Bem, depois se vê…”””

E mais não vos digo… porque mais não me disseram!!! CONCORRAM!!!

Poderão participar TODOS os visitantes REGISTADOS no blog do Francisco.



segunda-feira, 1 de março de 2010

Recado


Para além da filatelia, a minha paixão desde garota e que é o coleccionismo mesmo a sério na minha vida, faço colecção de postais dos meus aniversários, Natal e Páscoa, organizados desde os meus quinze anos em mais de vinte álbuns. Aqui, em Portugal, nasceram mais duas paixões: a colecção das caixinhas (tenho-as de todos os tamanhos) e, mais recentemente, de canecas…
A minha última caneca foi-me oferecida por uma amiga muito querida. Não sei bem porquê mas resolvi tirá-la do sítio onde estão as outras e é nela que tomo o meu café da manhã. Não tem nenhum atributo especial. É de barro como muitas outras, tem umas rosas, em relevo, bem pintadas, que a torna muito bonita. Por baixo das mesmas uma frase que leio e releio enquanto bebo o leite: “O amor que dás aos outros / todos os dias e ao longo do ano inteiro / multiplicar-se-á numa centena de pétalas / e retornará a ti”. Parece-me um recado. Analiso a minha vida e convenço-me que há muito de verdade nestas palavras. Claro que nem tudo são rosas como as da minha caneca que não têm espinhos. Eu já os tive de desilusões, de ingratidões e de esquecimento… ainda assim, não dá para cobrar juros daquilo que não retornou a mim.
Volto à frase da minha caneca e penso que, antes de a ter todos os dias nas minhas mãos, nunca me tinha preocupado com esta contabilidade de retorno… A rectidão da dádiva está precisamente, penso eu, em não se esperar recompensa…
O capital das minhas acções e atitudes, não sei se renderam alguns juros e não me importa saber. Estão depositados no banco da amizade onde não há perigo de assaltos, cheiro a bafio nem manchas de bolor. Também não pretendo com ele comprar a eternidade embora agora me lembre do cêntuplo prometido no Evangelho.
Prefiro antes que o amor que dou aos outros seja um eco que, repetido, beneficiará o mundo inteiro. Olho as estrelas, que costumo contar nas noites em que são mais visíveis, que continuam a brilhar de um modo extraordinário, a comover poetas ou a iluminar sonhadores enamorados… se dependessem dos agradecimentos dos homens, há muito se teriam apagado.
Penso na minha amiga que me ofereceu esta caneca com um recado junto às rosas em relevo e acredito, sem nenhuma dúvida, que o perfume fica sempre na mão de quem oferece a rosa…