O meu principezinho chamava-se Calhambeque.
Apareceu um dia em nossa casa:
- Senhora, precisa miúdo?
- E tu sabes fazer o quê?
- Varrer o chão e brincar c’os minino!
Está bem, podes ficar. Qual é o teu nome?
- É mesmo Jerónimo.
Sim, nessa altura era mesmo Jerónimo mas depois, por influência do Roberto Carlos, dum calhambeque estampado na camisola do Rui e de um calhambeque brinquedo que o Pai Natal trouxera ao Joãozinho, passou a ser “Calhambeque”.
Quando às vezes, por brincadeira, alguém o chamava: “Jerónimo, anda cá…”, ele voltava as costas, amuado, e não respondia.
Era muito engraçado o meu Principezinho – corpo pequeno mas bem proporcionado, pele escura, cabelo encaracolado e curto, mas olhos muito vivos, amendoados e em constante movimento, um ar de permanente interrogação.
Levantava-se cedíssimo, antes do sol nascer; conhecia todos os frutos silvestres, todos os pássaros, todos os bichitos pequenos que se escondiam no capim; sabia sempre qual o caminho para voltar para casa.
Grande amizade o unia ao Boby, o nosso cão; todas as tardes tinham grandes conciliábulos encostados ao tronco da goiabeira do quintal.
Às vezes não se lembrava de varrer o pátio, mas a casota do Boby estava sempre impecável.
No entanto, estas longas conversas eram-nos sempre interditas e tínhamos de ficar na escada de pedra a olhar, admirados e um tudo ou nada invejosos pelo franco entendimento dos dois.
Acontecia até que, quando o Calhambeque via o Boby, parecia rir-se também. Era demais!
- Calhambeque, vamos jogar à bola. E a tarde acabava num movimentado desafio com muitos golos.
… e agora rematava o Eusébio: golo! – O Eusébio rematava sempre dos lados!
Nunca nenhum de nós tinha visto jogar um clube metropolitano e os nomes quase nada nos diziam – Sporting, Benfica, Ferroviário – era tudo o mesmo. Mas o Eusébio, não; esse era o maior.
- Qual é o maior jogador do mundo, Calhambeque?
- É mesmo Eusébio.
- Então, tu és do Benfica?
- Sim, do Benfica daqui.. o único que tínhamos visto jogar.
- Calhambeque, amanhã o Joãozinho vai para a Escola. Vem fazer as contas com ele.
Mas os números eram demasiado abstractos.
- Mas ouve, Calhambeque, se não aprenderes os algarismos e a tabuada, nunca saberás fazer uma conta. Precisas de saber contar.
- Mas contar para quê?
Sim, para quê se ele tinha tudo – todos os pássaros, todos os frutos, todas as estrelas, todos os grilos do jardim, todos os raminhos duros para fazer fisgas – tudo.
- Ora, contar dinheiro, por exemplo. Quando ganhares muito dinheiro…
- Eu não precisa dinheiro.
E sorria, feliz, de braços abertos pelo quintal cheio de sol. Todos invejávamos a sua liberdade e a sua sabedoria de pequeno feiticeiro.

O planeta do meu Principezinho não era lá muito distante.
- Quantos quilómetros, não sabe.
- Mas é muito longe?
- Não, é só um dia…
E assim, a um dia de caminho ficava esse planeta misterioso que nós imaginávamos cheio de palhotas e coqueiros, talvez uma grande mangueira, á volta da qual correriam crianças e cães, galinhas e algum cabritito. Um planeta cheio de vida, com noites de luar e batuques, cujo ritmo avinhávamos no corpito ágil do Calhambeque.
Uma lata de azeite era o tambor. Nunca as nossas mãos tiraram de lá aqueles sons, nunca os nossos pés desenharam no chão batido e seco arabescos tão rápidos e confusos, nunca compreendemos o prazer com que se entregava à música, nem a exaltação que punha em todas as suas danças.
Mas, um dia, o meu Principezinho foi-se embora… Tal como viera, desapareceu. Os dias continuaram iguais, talvez depois, um pouco monótonos. Alguma coisa o chamava do seu planeta. Uma fogueira acesa na noite, uma palhota cheia de fumo e vozes… um cãozito rafeiro ladrando à Lua… sei lá! Nunca esqueci o meu Principezinho de pele escura e, quando olho a lua das minhas recordações, interrogo-me se ele ainda se lembrará de nós…





