segunda-feira, 3 de maio de 2010

Lourenço Marques (fotos históricas)

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Em Lourenço Marques (hoje Maputo), na prodigiosa cidade do então Portugal ultramarino, capital de Moçambique, os portugueses de todas as cores foram generosos no seu trabalho, esforço, interesse em construir a cidade maravilhosa que hoje é… ali, debruçada sobre o Índico, na Baía do Espírito Santo. A coragem norteou sempre os residentes e os metropolitanos que iam chegando aos poucos. O entusiasmo foi a sua bandeira de luta, denunciador duma consciência colectiva pro forma de uma realização corajosa onde todos se reviam na Princesa do Índico.
Conheci Lourenço Marques já moderna, cosmopolita, atractiva, cheia de predicados das grandes urbes de todo o mundo… mas hoje, as fotos aqui editadas, falam-nos de uma cidade a começar a nascer, a ganhar contornos daquela cidade que levou quase oitenta anos a erguer-se sob o céu azul de Moçambique.


Fotos que nos chegam do Canadá, através de um antigo colega e amigo de sempre, JORGE CAMPOS (JOCA) que, desta forma, colabora com o ZAMBEZIANA.
Poderíamos dar-lhe o título: HISTÓRIA DE UMA CIDADE!
A ti, Joca, o meu KANIMAMBO a que se juntará, por certo, o de muitos outros… de todos aqueles que gostarem desta história…

Graça


sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dia da Mãe - 2 de Maio


Não sei bem quando foi, mãe. Apenas sei que havia um caminho, o céu, tu e eu.

Íamos andando silenciosamente pelo caminho liso, e nascia do ar uma música levezinha, feita do calmo encanto do vento sobre os campos. À nossa beira nasciam papoilas sorrindo. Vinha ter connosco o perfume branco e agreste que fugia dos campos escondidos, e, dentro de mim, deslizava um grande mar de emoção. E então, minha Mãe, então eu descobri em ti o sorriso trémulo da papoila mais leve e amarrotada pela música do vento. Então eu fui pelos caminhos lisos e desfeitos dos teus cabelos soltos, em busca da tal papoila contente que eu encontrara em ti.


E quando o sol deixou tombar os olhos cansados, de mansinho, eu descobri que a cada amanhecer dos teus olhos havia também um poente, mãe. E quando no pressentimento da noite, a luz quieta e pura veio descansar a sua claridade no silêncio triste do entardecer, então eu descobri o brilho fugidio e doce da tarde no teu olhar, a força pura das árvores solitárias nos teus gestos e a pureza calma dos lagos anoitecidos no teu coração.

Depois, mãe, quando a noite era já profunda e calma sobre nós, eu peguei na música do vento e no meu sonho e fiz daí um hino comovido ao mistério simples que nos une. E no fim, quando as estrelas vieram chorar os seus desejos brandos sobre o mundo, eu sentei-me junto de ti, encostei a cabeça aos teus joelhos e na paz doce da tua presença, na noite, eu chorei com as estrelas, feliz só de me lembrar que te tinha

terça-feira, 27 de abril de 2010

Primavera



Esta manhã, em redor da minha casa, o mundo parecia dormir despertado apenas pelo bando de passarinhos que vão chegando aos poucos e não se cansam de cantar. Abri também as minhas asas e fui por aí fora… Antes, dei corda ao meu velho relógio de parede, tão velho como eu. Deixei-o retalhando o tempo com o seu tiquetaque já não tão sonoro como antigamente. Será que a alma das coisas se vai gastando? Não sei!
Deliciei-me com o meu passeio a pé. A natureza expande-se em força neste novos dias. Acredito que há risadas entre os ramos que se estendem depois do atrofiamento do Inverno. Penso na citação de Duhamel: “ Comunicando o que descobres trabalhas para os outros e para ti ao mesmo tempo. Dás uma forma ao teu sonho e entrega-lo assim, perfeito, a quem quiser colhê-lo… Fala, fala sempre do teu sonho.”
E eu falo. Falo sempre do meu sonho (não a toda a gente), deste sonho que colhi e guardo na minha alma. Acredito que chegarei à foz do rio, apesar das represas que vou encontrando, algumas bastante difíceis de transpor. Quando não consigo, deixo-me ir ao sabor das águas e às vezes, quantas agradáveis surpresas… Nem sempre é mau deixarmos que a vida nos leve. Outras vezes mergulho nas recordações para ganhar energias. De novo cito Duhamel: “Não acrediteis que possuir uma recordação é possuir um mundo morto. O mundo das lembranças vivas está indissoluvelmente ligado às nossas ocupações e aos nossos actos que ao acumular recordações, temos a impressão de preparar, de edificar o nosso próprio futuro.” Acredito que assim seja. Neste tempo de Primavera são vitaminas que vou tomando e que são precisas para retemperar forças.
É admirável que a minha “juventude” se revele, de novo, tão depressa apesar de tantas preocupações e solidão do coração. A mocidade (pelo menos a interior) é como este tempo, renasce sempre, ou de vez em quando, e eu faço também por isso.












A Primavera no meu jardim...


quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Meu Cristo

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Senhor:

Encontrei-Te num antiquário…
-Vê onde já Te põem –
Chamaste-me desde logo a atenção.
Não porque estivesses morto
Ensanguentado
E de braços estendidos…
Mas sim porque não tinhas cruz!
Não sei se foi generosidade
Do autor,
Tirar-Te a cruz
Que carregas há mais de dois mil anos.
Foi, no mínimo, insólito.
Não resisti
E trouxe-Te comigo.
Talvez não fosse por amor
Ou por piedade…
Talvez pensasse só em mim.
Irias ficar na parede branca
Do meu quarto
Sobre o meu leito
De solidão e angústias.
Com a Tua cabeça reclinada
Serias obrigado
A olhar-me todas as noites.
“Ainda bem que O trouxe…
Não tem cruz
Bem pode carregar com a minha”…

- Como te enganas…
Não tenho cruz

Porque desde sempre

Carrego a dos teus irmãos

E a tua , filhinha!

domingo, 18 de abril de 2010

A Rua da Morgue



A Casa Mortuária ficava encravada (tal como a morte) no topo de uma pequena rua sem saída… a não ser para o cemitério!
Era estreita, de comprimento teria pouco mais de cem metros e convivia serenamente, o que era natural, com a sua vizinhança. De um lado um dos muros e o portão de serviço do Colégio Nuno Álvares. Do outro umas três ou quatro casas geminadas, do princípio do século vinte, com uma varanda corrida com um muro baixo com pequenas colunas, onde os moradores se debruçavam para ver o cortejo fúnebre passar.
Esta capela, que a mim mais me parecia um açougue, ficava nas traseiras do Hospital Distrital de Quelimane, bem lá no fundo para que os doentes não se apercebessem que havia menos um hospitalizado e mais um encravado na Rua da Morgue.


Mesmo em tempo de muito calor aquela capela era fria. Completamente despida, de paredes muito brancas, tinha dois bancos corridos em pedra, um de cada lado e uma Essa no meio em mármore branco duma frieza que gelava. O único agente funerário existente na cidade (acho que se morria pouco em Quelimane…) o senhor Regalado, até o nome combinava bem, conseguia colocar alguma dignidade naquele frigorifico, com panos roxos lavrados simples ou bordados a ouro de acordo com a conta bancária do finado.
Durante muito tempo tive medo da morte, dos mortos e daquela rua…
Talvez por ser estreitamente sinistra, sem saída, os instrutores de condução gostavam de lá

levar os seus alunos a fazer manobras de inversão de marcha, estacionamento entre dois carros e outros exercícios testando não só a perícia do aluno mas também a sua coragem.
Quando comecei a ter aulas de condução foi uma das coisas que pedi ao meu instrutor:
- Por favor não me obrigue a fazer manobras na Rua da Morgue!
- Mas porquê?
- É que se a casa mortuária estiver aberta e com um morto lá dentro… eu fecho os olhos!
- Ora menina, deve ter medo é dos vivos e não dos mortos!
Mas devo ter mostrado tal pânico que o instrutor nunca me deu aulas naquela rua.
Uma amiga minha, que também andava nas aulas de condução, nunca se negou a fazer exercícios ali e até achava que era uma rua óptima para se ganhar confiança ao volante.
- Mas já lá fizeste manobras em dias de funeral? - perguntava eu espantada com tanta firmeza.
- Nunca calhou mas não me preocupo, afinal, o morto não vem atrás de mim…
Nem de propósito! Na semana seguinte morreu um VIP. A pequena capela tinha as suas pequenas portas escancaradas. Não cabia lá nem mais uma agulha. As pessoas com os seus ramos de flores ocupavam os pequenos passeios e quase toda a rua.
A minha amiga entrou com o carro de instrução devagarinho.
O instrutor disse-lhe:
- Tenha calma. Vamos fazer a inversão de marcha ao chegar ao primeiro grupo de pessoas.
Ela suava completamente desnorteada e acelerou.
- Não é aí! Utilize o travão. – mas o pé da minha amiga estava definitivamente colado no acelerador.
As pessoas só tiveram tempo de dar um grande salto e encostarem-se apertadinhas nos passeios, enquanto ela acelerava mais galgando o pequeno degrau, entrando pela morgue de encontro à urna funerária.
Abriu conforme pôde a porta do carro e correndo desesperada gritava:
- Eu matei-o! Eu matei-o!
O instrutor corria, também, atrás dela, dizendo-lhe:
-Não, ele já estava morto. Ele já estava morto!...