segunda-feira, 22 de junho de 2009

Micaela


Era um domingo quente e abafado como só em África pode acontecer. O sol brilhava abrasador por detrás das longas palmeiras daquela pequena aldeia indígena.

Ainda a manhã era uma criança e junto a uma pequenina palhota, pobre e quase sem luz, fervilhava já um movimento desusado. Havia jovens por todo o lado que, alegremente descarregavam de uma camioneta cedida para o efeito por uma boa alma, tudo o que era preciso para a construção de uma pequena casa – tábuas, pregos, cimento, tinta e fresco colmo já adquirido em fiadas de um metro de comprimento. A par de tudo isto haviam caixas completas de ferramenta que, alguns de nós, viam pela primeira vez.
Micaela era a preta com o sorriso mais doce que até hoje vi. No seu rosto redondo, já muito velhinho, reluziam dois olhos escuros que decerto, faziam concorrência ao luar de prata que todas as noites lhe batia na cubata. Jamais esquecerei o sorriso feliz da Micaela, sorriso de quem não tem nada a perder na vida. Estes sim, são os simples de espírito. Bateu as palmas de contente quando nos viu: finalmente ia ter uma casinha em condições, onde não chovesse dentro e tivesse uma janela rasgada de onde poderia contemplar o verde intenso do seu palmar.

Tu senhor, também foste connosco. Pois quem se não tu, nos pôs no peito aquela vontade e aquela alegria no coração? O trabalho não nos pesava porque tu estavas na retaguarda. Bem te vi. E como sorrias quando partilhávamos o almoço e a Micaela trouxe para sobremesa um tarrago cheio de mangas doces e sumarentas. Era tudo o que tinha. Lembrei-me da oferta da viúva pobre. Deitou mais que todos os outros. Nós demos o tempo que nos sobrava, mas ela, da sua pobreza deu tudo quanto tinha. Como tu às vezes nos pregas partidas... Nós a pensar que éramos os mais disponíveis, os mais simples, os totalmente desapegados e bastou um pequeno tarrago de mangas para “destruir” a nossa vaidade. Ainda bem que assim foi. De tarde, o nosso trabalho foi mais em espírito de pobreza, com mais amor. Ao cair da noite, quando o sol parecia uma bola de fogo bem por cima da nova casa da Micaela, as nossas mãos estavam semeadas de calos e feridas mas, na alma havia uma felicidade tão grande como o sorriso da Micaela.
Nunca mais esquecerei aquele domingo nem a preta com o sorriso mais doce que até hoje vi...

2 comentários:

  1. Duarte
    Este foi um domingo do Centro e. como este, tantos, tantos meu Deus! Foram cinco anos vividos "à pressão" como dizia o P,e Barros! Felicidade verdadeira... é isto! Um abraço Graça

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  2. Olá Graça,
    Que lindo nome voce tem! Obrigada pela visita no Café e por nos acompanhar. Também já estou a acompanhar teu blog e voltarei com prazer!
    Gostei muito desse texto sobre Micaela, e o outro que se não me engano chama-se as lembranças do amor, os dois que li.
    Seu blog tem uma doce profundidade que me atrai.

    Abraços e volte sempre!

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